Como o conceito de transtorno do espectro autista (TEA) evoluiu ao longo do tempo

Pontos principais do artigo
- As primeiras discussões sobre o desenvolvimento humano
- Grunya Sukhareva e uma das primeiras descrições do espectro autista
- Leo Kanner e os distúrbios autísticos do contato afetivo
- Hans Asperger e a diversidade das manifestações do autismo
- Do conceito de psicose ao transtorno do desenvolvimento
- Como o TEA passou a integrar os manuais diagnósticos
- O que significa compreender o autismo como espectro?
- Como o transtorno do espectro autista é caracterizado atualmente
- Por que a evolução do conceito de TEA importa?
- Compreender o passado para qualificar o cuidado no presente
O conceito de
transtorno do espectro autista (TEA)
nem sempre foi compreendido como é hoje. Em diferentes períodos históricos, o autismo deixou de ser associado principalmente às psicoses infantis e a teorias sobre o desenvolvimento humano para ser reconhecido como um transtorno do desenvolvimento marcado por ampla diversidade de manifestações.
Acompanhar essa trajetória permite compreender como as mudanças conceituais transformaram as classificações diagnósticas, orientaram pesquisas e influenciaram as abordagens terapêuticas.
Leia o artigo completo e conheça os principais marcos da
evolução do conceito
de transtorno do espectro autista.
As primeiras discussões sobre o desenvolvimento humano
A história do conceito de autismo está relacionada a debates antigos sobre a formação do ser humano e sobre o papel exercido pela natureza e pela experiência no desenvolvimento.
Casos de crianças que cresceram isoladas da sociedade despertaram o interesse de filósofos, médicos e educadores. Entre os exemplos mais conhecidos estão Victor de Aveyron e Kaspar Hauser, cujas histórias foram posteriormente retratadas no cinema.
Esses casos contribuíram para uma discussão que atravessaria os séculos seguintes: até que ponto as características humanas são inatas e até que ponto são adquiridas por meio da experiência?
O filósofo John Locke defendia que o conhecimento era construído a partir dos sentidos e das experiências. Segundo essa perspectiva, a mente da criança seria inicialmente uma espécie de superfície em branco, progressivamente preenchida pelo contato com o mundo.
Essa concepção influenciou a forma como Victor de Aveyron foi observado e acompanhado. Enquanto Philippe Pinel considerava que o menino apresentava limitações que impediriam sua educação e socialização, Jean Marc Gaspard Itard acreditava que seria possível ensiná-lo e reinseri-lo na sociedade.
A abordagem de Itard deu origem a um dos primeiros modelos médico-pedagógicos voltados à educação de uma criança com alterações importantes no desenvolvimento. Seu trabalho também exemplifica uma questão que continuaria presente nas discussões posteriores sobre o autismo: a relação entre características biológicas, ambiente, aprendizagem e desenvolvimento.
Grunya Sukhareva e uma das primeiras descrições do espectro autista
Uma contribuição fundamental para a construção do conceito de TEA ocorreu em 1926, quando a psiquiatra infantil Grunya Efimovna Sukhareva publicou a descrição de seis crianças com características específicas de comportamento e desenvolvimento.
Entre os aspectos observados estavam o isolamento, a dificuldade de interação social, a ausência de expressão facial, os interesses restritos, as atividades ritualizadas e a sensibilidade aumentada a sons e cheiros. Algumas crianças também apresentavam habilidades específicas.
Sukhareva descreveu ainda uma forma peculiar de pensamento, marcada pela tendência à abstração e por dificuldades na integração de elementos concretos. As crianças permaneciam afastadas dos demais, apresentavam timidez, preferência pela solidão e interesse por narrativas fantásticas.
Também foram identificadas características como rigidez, dificuldade de adaptação a situações novas, peculiaridades na linguagem, fala pouco modulada e alterações motoras. Apesar dessas dificuldades, não havia perda progressiva da personalidade. Ao contrário, observava-se crescimento e desenvolvimento contínuos.
O trabalho de Sukhareva demorou décadas para alcançar maior repercussão internacional. Ainda assim, sua publicação pode ser considerada uma das primeiras descrições sistematizadas de características hoje relacionadas ao
espectro autista
.
Leo Kanner e os distúrbios autísticos do contato afetivo
Em 1943, Leo Kanner publicou uma das descrições mais influentes da história do autismo. O quadro, denominado por ele de “distúrbios autísticos do contato afetivo”, era caracterizado por isolamento extremo, comportamentos ritualizados, estereotipias e alterações de linguagem.
Kanner utilizou o termo “autismo” a partir de uma concepção anteriormente desenvolvida por Eugene Bleuler. A palavra, originada do grego
autós
, estava associada à ideia de fechamento em si mesmo.
Para Bleuler, entretanto, o pensamento autista não correspondia a uma condição exclusiva de determinado grupo de crianças. Tratava-se de uma forma de funcionamento que poderia estar
presente também em adultos
e que envolvia uma vida interior pouco acessível ao observador.
A descrição de Kanner acabou sendo inicialmente relacionada aos quadros da linha esquizofrênica. Durante muitos anos, o autismo foi entendido como uma forma de psicose infantil.
Entre as características centrais identificadas por Kanner estavam a solidão, a necessidade de manutenção da mesmice, as alterações de linguagem, a ecolalia, a inversão pronominal, os comportamentos ritualizados e as respostas incomuns a estímulos sensoriais.
Ao destacar que essas características constituíam um transtorno fundamental, e não apenas uma reação secundária a outras condições, Kanner contribuiu decisivamente para a diferenciação clínica do autismo.
Hans Asperger e a diversidade das manifestações do autismo
No mesmo período, Hans Asperger apresentou casos de crianças com características semelhantes às descritas por Kanner. Ele utilizou a expressão “psicopatia autista” para denominar o quadro observado.
O trabalho de Asperger, publicado em língua alemã, só ganhou maior reconhecimento internacional décadas depois. A divulgação de suas ideias foi ampliada pelo trabalho de Lorna Wing e pela posterior tradução de sua tese para o inglês.
Tanto Kanner quanto Asperger observaram crianças com perfis cognitivos irregulares. Habilidades extraordinárias, especialmente relacionadas à memória repetitiva e às capacidades visuais, podiam coexistir com dificuldades significativas de julgamento e compreensão de situações cotidianas.
Essas observações ajudaram a demonstrar que o autismo não se manifestava de forma única. Havia diferenças importantes no desenvolvimento intelectual, na linguagem, na interação social e nas habilidades apresentadas por cada indivíduo.
Essa heterogeneidade seria fundamental para o surgimento posterior da ideia de espectro.
Do conceito de psicose ao transtorno do desenvolvimento
Durante as décadas de 1950 e 1960, as explicações psicodinâmicas exerceram forte influência sobre a compreensão do autismo. Diferentes autores propuseram conceitos relacionados às psicoses infantis e buscaram explicar o quadro a partir de processos afetivos e relacionais.
Nesse contexto, consolidou-se um debate entre duas perspectivas. De um lado, estavam as hipóteses psicogênicas, que atribuíam o quadro principalmente a fatores psicológicos. De outro, as hipóteses organogênicas, que enfatizavam aspectos biológicos.
Essas interpretações eram frequentemente apresentadas como explicações únicas e concorrentes. Embora esse debate tenha perdido parte de sua força, seus efeitos ainda podem ser identificados em diferentes formas de compreender o TEA.
A mudança mais significativa começou a ocorrer nos anos 1970. O autismo passou gradativamente a ser compreendido como uma síndrome comportamental relacionada a alterações cognitivas e ao desenvolvimento infantil.
Com isso, deixou de ser considerado prioritariamente uma psicose e passou a integrar o campo dos transtornos do desenvolvimento.
Essa transformação também aproximou a discussão sobre autismo da deficiência intelectual. O desenvolvimento cognitivo passou a ocupar uma posição central na avaliação das manifestações clínicas, do prognóstico e das necessidades de acompanhamento.
Como o TEA passou a integrar os manuais diagnósticos
A evolução do conceito de transtorno do espectro autista pode ser acompanhada pelas mudanças ocorridas nas classificações diagnósticas.
Nas primeiras edições do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, o autismo não aparecia como uma categoria específica. Crianças com manifestações semelhantes eram classificadas dentro dos quadros de esquizofrenia infantil.
Somente no DSM-III, publicado em 1980, o autismo passou a integrar uma categoria diagnóstica própria, no grupo dos transtornos abrangentes do desenvolvimento.
As classificações seguintes ampliaram e reorganizaram os critérios. No DSM-IV, diferentes diagnósticos faziam parte dos transtornos abrangentes do desenvolvimento, entre eles autismo, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo e transtorno abrangente do desenvolvimento não especificado.
Com o DSM-5 e o
DSM-5-TR
, essas categorias foram reunidas sob a denominação transtorno do espectro autista. A mudança buscou representar a continuidade e a diversidade das manifestações observadas.
A Classificação Internacional de Doenças também percorreu uma trajetória semelhante. Nas primeiras versões, o autismo não era mencionado. Posteriormente, foi relacionado à esquizofrenia, às psicoses infantis e aos transtornos invasivos do desenvolvimento, até chegar à classificação atual como TEA.
O que significa compreender o autismo como espectro?
A noção de espectro considera que o autismo pode apresentar diferentes graus e formas de manifestação. As características não se distribuem de maneira idêntica entre todas as pessoas.
As diferenças podem envolver interação social, comunicação verbal e não verbal, imaginação, linguagem, padrões repetitivos, respostas sensoriais, movimentos e habilidades específicas.
Em alguns indivíduos, a comunicação pode estar ausente ou ser utilizada apenas para necessidades imediatas. Em outros, pode haver comunicação espontânea, embora marcada por repetições, interpretações literais ou particularidades no uso da linguagem.
Os padrões repetitivos também podem variar. Eles podem aparecer como movimentos relacionados ao próprio corpo, manipulação repetitiva de objetos, rotinas complexas ou interesses verbais e abstratos muito específicos.
A sensibilidade a sons, cheiros, gostos, dor, texturas e outros estímulos pode ser intensa, ocasional ou pouco evidente. Da mesma forma, habilidades específicas podem estar abaixo, dentro ou acima do esperado para a idade.
Compreender o TEA como um continuum permite reconhecer essa diversidade. Entretanto, também exige cautela para que a amplitude do conceito não substitua uma avaliação clínica detalhada e contextualizada.
Como o transtorno do espectro autista é caracterizado atualmente
No DSM-5-TR, o diagnóstico de TEA é organizado em dois grandes grupos de características.
O primeiro envolve déficits persistentes na comunicação e na interação social. Eles podem aparecer na reciprocidade socioemocional, nos comportamentos comunicativos não verbais e na capacidade de desenvolver, manter e compreender relacionamentos.
O segundo grupo envolve padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Entre eles estão movimentos e falas repetitivas, necessidade de manutenção de rotinas, interesses intensos e restritos e respostas incomuns a estímulos sensoriais.
Os sintomas devem estar presentes desde o período inicial do desenvolvimento, ainda que possam se tornar mais evidentes apenas quando as demandas sociais ultrapassam as capacidades do indivíduo. Além disso, precisam produzir prejuízos significativos em áreas importantes da vida.
O DSM-5-TR também indica a necessidade de especificar o nível de apoio necessário, considerando os prejuízos na comunicação social e nos padrões de comportamento.
A CID-11 segue uma organização semelhante. Ela caracteriza o TEA por dificuldades persistentes na interação social recíproca e na comunicação social, associadas a comportamentos e interesses restritos, repetitivos e inflexíveis.
A classificação também considera a presença ou ausência de alterações no desenvolvimento intelectual e na linguagem funcional. Esses elementos ajudam a representar diferentes perfis e necessidades clínicas.
Por que a evolução do conceito de TEA importa?
As transformações no conceito de autismo não foram apenas mudanças de nomenclatura. Elas influenciaram diretamente as pesquisas, as práticas diagnósticas e as formas de acompanhamento.
Ao deixar de ser interpretado exclusivamente como uma psicose ou como uma reação afetiva, o autismo passou a ser analisado a partir do desenvolvimento cognitivo, da comunicação, da interação social, dos comportamentos e da adaptação.
Também ocorreram mudanças nas abordagens terapêuticas. Os tratamentos centrados predominantemente em antipsicóticos e psicoterapias de base analítica deram lugar a intervenções direcionadas a sintomas específicos e a abordagens pedagógicas fundamentadas em princípios cognitivo-comportamentais.
Ao mesmo tempo, a diversidade de classificações mostra que nenhum sistema diagnóstico deve ser entendido como uma verdade única e definitiva. Cada modelo parte de determinadas concepções teóricas e clínicas.
Por isso, conhecer a história do TEA amplia a capacidade de analisar criticamente os critérios utilizados e de compreender o indivíduo para além do simples preenchimento de categorias diagnósticas.
Compreender o passado para qualificar o cuidado no presente
A história do transtorno do espectro autista revela uma trajetória marcada por debates, mudanças de perspectiva e reformulações clínicas. Das primeiras discussões sobre crianças isoladas às classificações atuais, o conceito de TEA foi sendo construído à medida que novas formas de compreender o desenvolvimento humano ganharam espaço.
Essa evolução mostra que as definições adotadas em cada período influenciaram diretamente a maneira como o autismo passou a ser identificado, pesquisado e acompanhado. Também reforça a importância de considerar, de forma integrada, os critérios diagnósticos, a história do desenvolvimento, o funcionamento cognitivo e o contexto de vida de cada pessoa.
Este artigo foi elaborado com base no primeiro capítulo de
Tratado sobre o transtorno do espectro autista
, que apresenta a evolução histórica e conceitual do autismo e oferece fundamentos para uma compreensão mais ampla e crítica do tema. Para aprofundar esse conhecimento e ampliar a visão sobre a complexidade do TEA e suas diferentes manifestações,
conheça a obra completa
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