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Trauma vicário na clínica psicológica: como reconhecer e prevenir

Como o trauma vicário acontece na prática clínica?

Nas últimas décadas, a literatura tem demonstrado que a exposição a eventos traumáticos está associada a diversos desfechos negativos (Hogg et al., 2023).

Esse reconhecimento contribuiu para o aumento da procura por atendimento psicológico após
experiências traumáticas
, fazendo com que profissionais da saúde mental mantenham contato frequente com relatos detalhados de sofrimento, tanto em contextos profissionais quanto acadêmicos.

Embora esse trabalho seja fundamental para a recuperação dos pacientes, a exposição contínua ao sofrimento pode gerar impactos na saúde mental dos próprios profissionais, manifestando-se nos planos cognitivo, emocional, físico, social e comportamental (Pellegrini et al., 2022).

O trauma vicário corresponde a um processo gradual e cumulativo de mudanças psicológicas decorrentes do envolvimento empático com pessoas expostas ao trauma.

Caracteriza-se principalmente por alterações nas crenças centrais sobre si mesmo, os outros e o mundo, podendo afetar a identidade pessoal e profissional e contribuir para sentimentos de desconfiança, desesperança, vulnerabilidade emocional e sobrecarga psicológica (Branson, 2019; Pellegrini et al., 2022).

Neurobiologia do trauma vicário

Embora seja desencadeado pela exposição ao sofrimento de outras pessoas, o trauma vicário parece envolver os mesmos sistemas
neurobiológicos ativados diante do trauma direto
(Russell et al., 2015; Taren et al., 2026).

A empatia, um dos principais recursos terapêuticos para fortalecer a
aliança terapêutica
e oferecer um cuidado humanizado (Nienhuis et al., 2018), também pode aumentar a vulnerabilidade emocional quando associada à exposição contínua ao sofrimento sem estratégias adequadas de proteção (Finklestein et al., 2015).

Uma das hipóteses para explicar esse fenômeno baseia-se na teoria dos neurônios-espelho, segundo a qual esses neurônios contribuem para a compreensão intuitiva das ações e emoções do outro (Russell et al., 2015).

Assim, ao escutar repetidamente relatos traumáticos, o profissional pode apresentar respostas fisiológicas e emocionais semelhantes às observadas diante de ameaças diretas. A ativação contínua dos sistemas de resposta ao estresse, envolvendo o sistema nervoso simpático e o parassimpático, pode gerar desgaste físico e emocional ao longo do tempo.

Sinais clínicos e emocionais de trauma vicário

As manifestações do trauma vicário podem se assemelhar aos
sintomas do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
, mas também incluem mudanças cognitivas, emocionais, físicas e interpessoais que afetam o funcionamento profissional e pessoal (Alqablan et al., 2021).

Entre os sintomas mais frequentes estão pensamentos intrusivos, flashbacks, pesadelos, revivência, evitação, entorpecimento emocional e hiperexcitação.

Alguns profissionais passam a reviver as histórias dos pacientes, evitam conteúdos relacionados ao trauma e desenvolvem hipervigilância e preocupação excessiva com a própria segurança ou a de pessoas próximas.

Esse padrão é frequentemente descrito como estresse traumático secundário, mas também pode fazer parte do trauma vicário (Tsirimokou et al., 2022).

Também são comuns mudanças cognitivas, como aumento da desconfiança, pessimismo, cinismo, desesperança, sensação de impotência e alterações nas crenças sobre segurança, confiança, controle, autoestima, intimidade e vulnerabilidade (Lanier, 2017).

No plano emocional, podem ocorrer tristeza, ansiedade, raiva, frustração, sofrimento prolongado e distanciamento emocional, além de sintomas depressivos, culpa, perda de sentido da vida, ideação suicida e abuso de substâncias em casos mais graves.

Os impactos físicos incluem fadiga, exaustão, dores de cabeça, dores articulares, alterações gastrointestinais, enxaquecas, hipertensão, alterações cutâneas e maior suscetibilidade a doenças (Alqablan et al., 2021).

Já no âmbito comportamental, podem ocorrer isolamento social, evitação, alterações do sono e da alimentação, abuso de substâncias, dificuldade em estabelecer limites entre vida pessoal e profissional e redução da capacidade de permanecer emocionalmente presente durante os atendimentos (Alqablan et al., 2021).

O impacto na identidade profissional do psicólogo

O trauma vicário pode modificar profundamente a forma como o psicólogo percebe a si mesmo, os pacientes e o mundo.

A exposição repetida ao sofrimento pode favorecer a crença de que o mundo é essencialmente perigoso, levando à hipervigilância e à interpretação de situações cotidianas como ameaçadoras (Wyatt, 2024).

Em outros casos, pode surgir o entorpecimento emocional como estratégia de enfrentamento, reduzindo a capacidade de empatia e favorecendo sentimentos de apatia e desconexão (Tsirimokou et al., 2022).

Essas mudanças podem comprometer a qualidade de vida, favorecer sintomas físicos persistentes, isolamento social e prejuízos na prática clínica. Em consequência, alguns profissionais acabam abandonando precocemente a profissão (Finklestein et al., 2015; Lanier, 2017).

Fadiga por compaixão e burnout: semelhanças e diferenças

A fadiga por compaixão, o
burnout
e o trauma vicário são fenômenos relacionados, mas representam respostas distintas ao sofrimento ocupacional (Newell et al., 2010). Embora apresentem sintomas semelhantes e sejam frequentemente utilizados como sinônimos, possuem mecanismos diferentes.

A fadiga por compaixão corresponde ao desgaste emocional, físico e cognitivo associado ao envolvimento empático com pessoas em sofrimento.

Já o burnout não depende da exposição ao trauma alheio, estando relacionado ao estresse crônico no ambiente de trabalho e às condições organizacionais, como sobrecarga de demandas, baixa autonomia e pouco suporte institucional (Clark et al., 2021).

Apesar das diferenças, os três fenômenos podem compartilhar manifestações como exaustão emocional, redução da empatia, ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, dificuldade de concentração, sintomas físicos relacionados ao estresse, isolamento social e prejuízos na prática clínica.

O trauma vicário se diferencia principalmente pelas alterações profundas nos esquemas cognitivos e nas crenças sobre si mesmo, os outros e o mundo decorrentes da exposição contínua ao trauma alheio.

A fadiga por compaixão envolve principalmente exaustão emocional relacionada ao cuidado, enquanto o burnout pode ocorrer mesmo na ausência de contato com relatos traumáticos (Clark et al., 2021).

Estratégias institucionais e organizacionais para prevenir e abordar o sofrimento

Além da exposição ao sofrimento e do envolvimento empático, o desenvolvimento do trauma vicário também é influenciado pela organização do trabalho, pela cultura institucional e pelas condições oferecidas aos profissionais. Dessa forma, as instituições possuem papel fundamental na promoção da saúde mental dos psicólogos.

Entre as estratégias organizacionais recomendadas estão a oferta de supervisão clínica regular, apoio entre pares, equilíbrio da carga de trabalho, diversificação dos casos atendidos, redução da exposição prolongada a conteúdos traumáticos e construção de uma cultura institucional informada pelo trauma.

Também são importantes políticas que favoreçam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, como respeito aos períodos de descanso, pausas adequadas e incentivo ao autocuidado (Roberts et al., 2022).

Estratégias de intervenção e proteção emocional: como prevenir?

Não existe uma estratégia única capaz de prevenir o trauma vicário. A proteção emocional depende da combinação de diferentes hábitos e recursos desenvolvidos ao longo do tempo.

Um aspecto fundamental é reconhecer sinais precoces de sofrimento, como irritabilidade, alterações no sono, dúvidas sobre a própria eficácia profissional ou priorização constante das necessidades dos pacientes em detrimento das próprias necessidades básicas (Alqablan et al., 2021).

Também é importante estabelecer limites saudáveis entre vida pessoal e profissional, evitando sobrecarga, mantendo expectativas realistas e reconhecendo os próprios limites (Alqablan et al., 2021).

A supervisão clínica e o apoio de colegas também constituem fatores protetivos importantes, pois oferecem espaço para processar conteúdos traumáticos, refletir sobre a prática profissional e desenvolver estratégias de enfrentamento (Tsirimokou et al., 2022).

Além disso, práticas de autocuidado, psicoterapia, quando necessária, atenção plena, escrita reflexiva, meditação, alimentação adequada, sono regular e atividade física podem favorecer a
autorregulação emocional
e fortalecer a resiliência diante da exposição contínua ao sofrimento alheio (Tsirimokou et al., 2022).

O desenvolvimento da autocompaixão também representa uma importante estratégia de proteção, pois favorece uma postura menos autocrítica e mais acolhedora diante das próprias dificuldades, podendo reduzir os impactos emocionais da prática clínica (Woolway et al., 2026).

A literatura aponta que nenhuma estratégia isolada é suficiente: a proteção resulta da combinação de fatores individuais, relacionais e institucionais construídos ao longo do tempo. Assim, investir na própria saúde mental deve ser compreendido como um componente essencial de uma prática profissional sustentável e ética (Pau et al., 2020).

Autoria

Autoras: Omar, M. H.; Santos, E. F. L.; Neufeld, C. B.
 

Miriam Haj Omar: 
Psicóloga graduada pela 
York University
 (Canadá). Mestra e doutoranda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Integrante do Grupo de Pesquisa em Cognição, Saúde e Comportamento e vinculada ao Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse. 

 

Eloha Flória Lima Santos:
 Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento. 

 

Carmem Beatriz Neufeld:
 Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Perguntas Frequentes