Evolução da psicopatologia: o que mudou nas últimas décadas?

Pontos principais do artigo
Sobre psicopatologia
A psicopatologia é o estudo científico do adoecimento mental do ser humano, o que corresponde, de maneira popular, aos transtornos psicológicos; esse conhecimento precisa buscar ser sistemático, elucidativo e desmistificante (Barlow et al., 2020; Dalgalarrondo, 2019).
Para que se chegue a conclusões sobre o que é considerado adoecimento mental, uma pergunta que necessariamente perpassa a atuação de todo profissional de saúde é:
o que é normal e o que é patológico
?
Historicamente, as definições de comportamento normal e anormal são associadas àquilo que é “desejável” ou “indesejável”, que é “bom” ou “ruim”, ou seja, possuem uma carga moral atrelada.
É importante, assim, que o profissional de saúde que atua próximo à ideia de psicopatologia tenha clareza de que o que consideramos como comportamentos e estados mentais patológicos ou normais não advém de uma neutralidade, e sim de ramificações do que representam os interesses e preocupações humanos daquele contexto histórico específico (Dalgalarrondo, 2019).
Três explicações vêm sendo mais utilizadas ao longo do tempo para o comportamento atípico: a explicação sobrenatural, na qual o comportamento é atribuído ao ambiente ou a agentes externos como demônios, espíritos ou influência da lua e dos astros; a explicação biológica, em que transtornos são atribuídos à doença ou aos desequilíbrios bioquímicos; e a explicação psicológica, em que o comportamento atípico é atribuído ao desenvolvimento psicológico inadequado e ao contexto social (Barlow et al., 2020).
Além disso, os critérios que são mais usados para se entender a normalidade e a anormalidade são (Dalgalarrondo, 2019):
- Normalidade como ausência de doença, o que acaba sendo uma definição “negativa”, pois aponta o que a normalidade não é ao invés de definir o que ela é;
- Normalidade como o “ideal” socialmente considerado, que depende, portanto, de aspectos socioculturais e ideológicos;
- Normalidade como estatística, ou seja, o normal é aquilo que se apresenta com maior frequência, e o raro é considerado patológico (o que nem sempre é verdade, pois fenômenos podem ser comuns e não necessariamente saudáveis);
- Normalidade como bem-estar, que pode chegar a ser utópico a depender do que se exige para o completo bem-estar físico, mental e social de uma pessoa;
- Normalidade funcional, ou seja, se a pessoa é considerada disfuncional, isso seria patológico (o que também depende de definições sociais de funcionalidade);
- Normalidade como processo, pois se torna dependente dos aspectos dinâmicos do desenvolvimento ao longo do tempo;
- Normalidade subjetiva, na qual a própria pessoa define o que é normal de acordo com suas vivências;
- Normalidade como liberdade sobre o mundo e o próprio destino;
- Normalidade operacional, que se guia por um critério arbitrário definido a priori.
Ou seja, a psicopatologia possui uma multiplicidade de abordagens e referenciais teóricos, e por isso é importante que o profissional saiba identificar o que guia seu entendimento do que é normal ou patológico e que mantenha uma postura permanentemente aberta, crítica e reflexiva acerca disso (Dalgalarrondo, 2019).
Evolução dos manuais diagnósticos
A evolução do entendimento de psicopatologia acompanha a criação e definição de normalidade/anormalidade e dos
manuais diagnósticos
utilizados para avaliar esses níveis de tipicidade e atipicidade nas pessoas.
As primeiras tentativas de catalogar a frequência de transtornos mentais nos norte-americanos foram feitas através do censo de 1840, em que havia uma pergunta sobre “idiotia” e “loucura” a ser respondida.
Em 1880, o censo já trazia uma pergunta mais extensa com as doenças mentais, sendo essas divididas em mania, melancolia, monomania, paresia, demência, dipsomania e epilepsia (Araújo & Lotufo Neto, 2014; Derbli, 2011).
Em 1917, a American Medico-Psychological Association (atual APA) e a National Commission on Mental Hygiene desenvolveram um sistema classificatório de desordens mentais, que ainda funcionava como classificação estatística e não tanto como manual diagnóstico.
Em 1948, para categorizar ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial nos ambulatórios, a OMS criou uma seção destinada aos transtornos mentais na Classificação Internacional de Doenças (CID-6).
Finalmente, em 1953, a Associação Psiquiátrica Americana (APA), insatisfeita com a classificação de desordens mentais da CID-6, publicou o primeiro manual de transtornos mentais focado na clínica, o DSM-I, que consistia em uma lista de 106 diagnósticos categorizados e um glossário.
Os psiquiatras tentaram, com o DSM-I, promover agrupamentos de sintomas que ajudassem no processo diagnóstico dos pacientes, levando em conta o entendimento de saúde e doença mental como estados transicionais fluidos, derivados de uma lógica psicodinâmica (Araújo & Lotufo Neto, 2014; Derbli, 2011).
O DSM-II, de 1968, não teve grandes mudanças a não ser algumas modificações em terminologias, com 182 desordens mentais no total. Em 1980, o DSM-III apresentou uma nova metodologia e estrutura focadas em descrição e critérios diagnósticos mais explícitos e organizados em um sistema multiaxial, incluindo 265 categorias diagnósticas.
Houve uma revisão textual em 1987, sendo este conhecido como DSM-III-R. Nesse momento, adotou-se uma lógica ateórica no DSM, embasando-se em sintomas observáveis para os critérios diagnósticos (Araújo & Lotufo Neto, 2014; Derbli, 2011).
Já em 1994, o DSM-IV foi apresentado e continha um aumento dos dados, a inclusão de novos diagnósticos e uma nova clarificação e precisão nos critérios diagnósticos.
Seu texto revisado foi publicado em 2000, sendo conhecido como DSM-IV-TR. O
DSM-V
foi publicado em 2013, com o objetivo de garantir uma fonte segura e cientificamente embasada para aplicação em pesquisa e prática clínica.
Rompeu-se com o modelo multiaxial da terceira edição do manual, e uma das críticas feitas ao manual é a de que os critérios tornaram-se menos diretos e mais abrangentes do que nos manuais anteriores (Araújo & Lotufo Neto, 2014; Derbli, 2011).
Esse caminho percorrido para a construção dos manuais diagnósticos explicita, novamente, como o entendimento do que é uma psicopatologia é passível de mudanças a depender do contexto histórico no qual estamos inseridos, sendo a normalidade e a anormalidade conceitos fluidos, e não estáticos.
Medicalização do cotidiano
Medicalização é quando problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como problemas médicos, doenças ou transtornos. Medicalizar envolve, mais uma vez, a definição de comportamentos como normais ou anormais, e esse poder de definição muitas vezes reside na figura do profissional de saúde (Dalgalarrondo, 2019).
A grande questão relacionada à medicalização é se aqueles indivíduos que recebem um diagnóstico realmente necessitam desse rótulo e se os que não recebem, de fato, não precisam receber.
Não se pode compreender tudo que existe em um ser humano por meio de conceitos psicopatológicos, e o diagnóstico deve ser visto como um meio para organizar o
pensamento clínic
o e orientar a prática profissional (Dalgalarrondo, 2019).
O uso de classificações como o DSM e a CID é importante como ferramenta de
padronização e comunicação clínica
, mas não deve ser feito de maneira acrítica e reducionista, devendo levar em conta o contexto social, histórico, cultural e relacional no qual o sofrimento se encontra. A escuta precisa ser, então, um ato clínico e político (Garcia et al., 2026).