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O que mudou na compreensão clínica do TEA em adultos?

A mudança histórica na compreensão do TEA

A compreensão do
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
mudou significativamente ao longo das últimas décadas: as primeiras descrições de sintomas e manifestações clínicas foram feitas em 1943 por Leo Kanner e, em 1944, por Hans Asperger, a partir da observação de crianças com dificuldades na interação social e na comunicação, além de comportamentos ritualísticos e repetitivos.

Durante muitos anos, porém, o autismo foi compreendido como uma condição exclusivamente da infância e, em determinados períodos, chegou a ser interpretado por teorias de base psicogênica (Riesgo et al., 2026).

Foi somente com os avanços das pesquisas em neurodesenvolvimento e com as mudanças nas revisões dos sistemas classificatórios que essa compreensão passou por importantes transformações.

No DSM-III (1980), o autismo passa a fazer parte de uma categoria específica, enquanto que a CID-10 (1993) e o DSM-IV (1994) enquadram o autismo dentro de categorias de transtornos abrangentes de desenvolvimento, como a Síndrome de Asperger.

Posteriormente, no DSM-5 (2013) e
DSM-5-TR
(2023), é que se consolidou o conceito de espectro, destacando a diversidade de manifestações clínicas e funcionalidade (Del Porto; Assumpção Jr., 2023).

Desse modo, atualmente o TEA é compreendido como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além de comportamentos restritos e repetitivos, que acompanha o indivíduo ao longo de todo o ciclo vital e
pode se manifestar de diferentes formas
(APA, 2023).

Com isso, tornou-se possível reconhecer apresentações clínicas que anteriormente passavam despercebidas, especialmente em pessoas com linguagem preservada, bom desempenho cognitivo ou que desenvolveram estratégias de adaptação ao longo da vida.

Por que tantos adultos passaram sem diagnóstico?

Embora as características do TEA estejam presentes desde a infância, elas nem sempre são facilmente reconhecidas nesse período. Em muitos casos, tornam-se mais evidentes apenas na vida adulta, quando o aumento das demandas sociais, acadêmicas e ocupacionais passa a exigir maior flexibilidade cognitiva, autonomia, habilidades de comunicação e manejo das relações interpessoais.

Durante muitos anos, os critérios diagnósticos centravam-se nas apresentações mais clássicas do autismo, associadas a alterações importantes da linguagem, déficits sociais mais evidentes e maior necessidade de suporte.

Como consequência, indivíduos com linguagem preservada, bom desempenho intelectual ou manifestações mais sutis frequentemente não eram identificados como autistas. Além disso, muitos adultos desenvolveram estratégias para compensar ou ocultar características autísticas ao longo da vida, dificultando o reconhecimento clínico do TEA.

Masking e camuflagem social

Uma das principais contribuições recentes para a compreensão do
TEA em adultos
foi o reconhecimento dessas estratégias de adaptação social, descritas na literatura como masking ou camuflagem social.

O termo refere-se ao conjunto de comportamentos utilizados para ocultar, minimizar ou compensar ativamente características autísticas durante as interações sociais, buscando adaptar-se às expectativas do ambiente, reduzir experiências de rejeição, exclusão ou estigmatização e integrar-se à sociedade (Alaghband-Rad et al., 2023).

Estudos sugerem que a camuflagem social é mais frequentemente relatada por
mulheres autistas
, o que também dificulta os seus diagnósticos (Murphy et al., 2016).

Esse fenômeno contribuiu para ampliar a compreensão da heterogeneidade do espectro e modificou a forma como o autismo passou a ser investigado na vida adulta.

Atualmente, sabe-se que a aparente ausência de dificuldades sociais não exclui a possibilidade de TEA, tornando-se igualmente importante investigar o esforço necessário para sustentar esse funcionamento social.

TEA, trauma e psicopatologia associada

Embora a camuflagem social possa favorecer a adaptação em determinados contextos, ela frequentemente ocorre às custas de intenso esforço cognitivo e emocional. Além disso, em muitos casos, a adoção de estratégias de masking pode ser compreendido como uma resposta a experiências repetidas de rejeição, bullying, críticas, punições ou estigmatização vivenciadas desde a infância (Turnock et al., 2022; Riesgo et al., 2026).

Como consequência, estudos têm demonstrado que a camuflagem social está associada a maior risco de sofrimento psíquico, incluindo sintomas de
ansiedade
, depressão, estresse, exaustão, baixa autoestima e prejuízos na construção da identidade.

Dessa forma, a adoção dessas estratégias ao longo dos anos pode contribuir para o agravamento do sofrimento emocional, especialmente quando ocorre em ambientes caracterizados por baixa aceitação, invalidação ou discriminação.

Tais achados reforçam a importância de compreender o sofrimento psicológico de adultos autistas considerando também as experiências relacionais e os esforços contínuos de adaptação vivenciados ao longo da vida (Evans et al., 2024).

Neurodiversidade e mudança de paradigma clínico

Nas últimas décadas, o movimento da neurodiversidade contribuiu para ampliação da compreensão do autismo para além de uma perspectiva exclusivamente centrada em déficits.

Nesse sentido, o TEA passou a ser compreendido como uma condição do neurodesenvolvimento que representa uma forma diferente de funcionamento cerebral, reconhecendo que pessoas autistas podem apresentar tanto dificuldades quanto potencialidades e diferentes formas de interação com o ambiente.

Essa perspectiva também trouxe mudanças importantes para a prática clínica profissional, já que o foco deixou de estar exclusivamente na redução de comportamentos considerados atípicos e passou a incluir também a promoção da qualidade de vida, da autonomia e da participação no contexto social e, para muitos adultos, a construção de uma compreensão mais integrada da própria identidade e trajetória de vida.

Ao mesmo tempo, a neurodiversidade também reforçou a importância de considerar o papel do ambiente na produção do sofrimento psíquico, já que muitas dificuldades enfrentadas por pessoas autistas não decorrem apenas das características do TEA, mas também da falta de compreensão, da baixa acomodação das diferenças e das constantes exigências de adaptação impostas pelos contextos sociais (Ghanouni & Seaker, 2023; Liñares-de-Marcos et al., 2026).

O impacto das redes sociais no reconhecimento do TEA

Nos últimos anos, as redes sociais vêm desempenhando um papel importante na ampliação da visibilidade do TEA e na divulgação de informações sobre o autismo adulto. Nesse sentido, as redes sociais passaram a funcionar como espaços de compartilhamento de experiências, psicoeducação e construção de comunidades.

Para muitos adultos, o contato com relatos semelhantes aos seus representou o primeiro passo para reconhecer características autísticas em sua própria trajetória e buscar uma ajuda especializada (Skafle et al., 2024).

Em contrapartida, a ausência de processos formais de revisão e verificação permite que diversos comportamentos e experiências sejam frequentemente interpretados como sinais de TEA, contribuindo para generalizações, estereótipos e interpretações equivocadas. Em 2021, por exemplo, a hashtag #Autism esteve entre as mais visualizadas na categoria saúde do TikTok, indicando o alcance e interesse na temática (Aragon-Guevara et al., 2025).

Desse modo, torna-se cada vez mais importante que psicólogos desenvolvam uma postura crítica diante das informações divulgadas nas redes sociais.

Embora esses espaços possam proporcionar psicoeducação e redução do estigma, eles não substituem uma investigação clínica profissional.

O desafio consiste em reconhecer o potencial informativo dessas plataformas sem perder de vista a complexidade do TEA e a necessidade de uma
avaliação baseada em evidências
.

Implicações para a prática clínica

As transformações na compreensão do
TEA em adultos
exigem que psicólogos ampliem seu olhar para além dos critérios diagnósticos. Para além da identificação de características mais evidentes, hoje é necessário compreender a história de desenvolvimento do paciente, a forma como ele aprendeu a se relacionar com o mundo e o impacto que anos de adaptação, camuflagem e incompreensão podem ter exercido sobre sua saúde mental.

Além disso, o psicólogo tem o desafio de compreender o significado que esse diagnóstico assume para cada paciente, já que, para muitos adultos, receber o diagnóstico pode representar a possibilidade de reescrever a própria história, compreender dificuldades vivenciadas ao longo da vida e construir uma relação menos culpabilizante consigo mesmo.

Nesse processo, a psicoeducação, a validação das experiências vividas e o planejamento de intervenções individualizadas tornam-se tão importantes quanto o próprio processo diagnóstico.

Autoria

Autoras: Silva, A. F.; Santos, E. F. L.; Neufeld, C. B.
 

Andreza Fonsêca da Silva: 
Psicóloga formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), com especialização em Neuropsicologia e Reabilitação Neurológica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP-USP) e especializanda em Psicoterapia para Adultos Neurodivergentes. É psicóloga do setor de Neurologia em hospital terciário e atua na clínica com avaliação neuropsicológica e psicoterapia na abordagem analítico-comportamental para adolescentes e adultos, com ênfase em neurodivergência. 

 

Eloha Flória Lima Santos:
 Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento. 

 

Carmem Beatriz Neufeld:
 Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

Perguntas Frequentes