Teoria das Molduras Relacionais (RFT): fundamentos e aplicações na prática clínica

Na prática clínica, é comum observar pacientes presos a padrões rígidos de pensamento, dominados por regras internas, autocríticas intensas e interpretações literais de suas próprias experiências.
Muitas dessas dificuldades não estão apenas no conteúdo do que se pensa, mas nos processos que estruturam a própria linguagem e cognição.
A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) surge como uma tentativa de explicar justamente isso: como os seres humanos aprendem a relacionar estímulos de maneira arbitrária e como essas relações moldam comportamento, emoções e sofrimento.
Mais do que uma teoria abstrata, a RFT oferece ao psicólogo uma lente funcional para compreender fenômenos clínicos complexos e fundamentar intervenções como a desfusão cognitiva.
O que é a Teoria das Molduras Relacionais (RFT)?
A RFT trata-se de uma teoria contextual funcional, pós-skinneriana, acerca da linguagem e da cognição humanas.
Teve sua introdução no cenário científico em 1985, quando da apresentação de Hayes e Browstein na Convenção Anual da Association for Behavior Analysis ( Gross & Fox, 2009), sendo crescentemente estudada desde então.
Em seus preceitos, a RFT objetiva explicar, de forma abrangente, parte do sucesso evolutivo da espécie humana, buscando compreender as raízes cognitivas das realizações e do sofrimento humanos (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021).
Nesse contexto de aumento de interesse pelos estudos da teoria, Hayes et al. (2021) assinalaram que, ao menos na última década, a RFT se mostrou uma das áreas mais exploradas da pesquisa em análise comportamental básica humana, ainda que, conforme Mello e Almeida (2021), trate-se de uma teoria densa e de notória complexidade, apresentando desafios aos estudiosos, conforme será detalhado mais adiante.
Principais conceitos da RFT
A RFT sugere que estímulos adquirem funções de forma indireta, através de Respostas Relacionais Arbitrariamente Aplicadas (RRAA), operante importante da teoria.
Na descrição da história sobre como humanos adquirem o RRAA, o estabelecimento desse operante é iniciado pelo aprendizado do responder relacional não arbitrário, em que há resposta a relações formais, ou seja, baseada em propriedades físicas, por exemplo: “Essa bola é MAIOR do que aquela”, em uma relação de comparação de tamanhos (Perez et al., 2013).
No entanto, as práticas da comunidade verbal não se limitam a propriedades físicas dos estímulos, passando a ser empregadas e também a serem ensinadas e aprendidas de maneira arbitrária, como em: “Gisele Bündchen é a MAIOR modelo do mundo”.
Nesse caso, “maior” não se refere literalmente ao tamanho físico, já que existem modelos mais altas.
A palavra é aplicada com base em convenção estabelecida arbitrariamente pela comunidade verbal.
Além de relações de comparação como a mencionada, relações arbitrárias também são estabelecidas com base em diferentes molduras relacionais, como: igualdade, equivalência, oposição, comparação, relações hierárquicas, diferença, relações espaciais, temporais, dêiticas e de causalidade (Perez et al., 2013).
A partir do aprendizado das relações arbitrárias, torna-se possível responder a relações não diretamente ensinadas, a partir do envolvimento de três propriedades funcionais: implicação mútua, implicação combinatória e transformação de função (Perez et al., 2013).
Em relação à primeira propriedade, pode-se exemplificar da seguinte forma: ao aprender que “Carla é maior que Paula”, deriva-se também, sem ensino direto, que “Paula é menor que Carla”.
No que concerne à implicação combinatória, por sua vez, é tido que diferentes relações aprendidas passam a ser combinadas.
Assim, se uma pessoa aprende que “Eduardo é maior que Pedro” e que “Pedro é maior que Lucas”, pode derivar que “Eduardo é maior que Lucas”, mesmo nunca tendo sido ensinada diretamente.
A RFT propõe ainda que, a partir dessas relações derivadas, ocorre a transformação de função dos estímulos, que significa que as funções psicológicas de um estímulo podem ser alteradas com base nas relações verbais estabelecidas.
Por exemplo, alguém que nunca fez determinado procedimento médico pode sentir receio e evitá-lo, após ouvir repetidamente que é doloroso.
Nesse caso, a função aversiva não foi aprendida por experiência direta, mas transformada por meio de relações verbais.
Desafios na compreensão e aplicação da RFT
Frente às questões conceituais, filosóficas e empíricas suscitadas pela RFT, Gross e Fox (2009) destacaram que a teoria é considerada controversa por parte de uma parcela de pesquisadores e estudiosos, especialmente por diferir das ideias iniciais de Skinner sobre comportamento verbal.
Também ressaltaram sua complexidade, que dificulta a compreensão de conceitos e termos mesmo entre analistas do comportamento experientes.
Barnes-Holmes et al. (2004) apontaram ainda a incipiência dos estudos básicos em RFT, até então concentrados em redes relacionais simples e pouco aplicadas, indicando a necessidade de novos programas de pesquisa.
Diante dessas controvérsias e complexidades, parte dos clínicos da ACT demonstra resistência em aprofundar estudos em RFT. Hayes et al. (2021) assinalaram que é possível atuar clinicamente sem ser especialista na teoria, embora seu conhecimento seja considerado relevante.
Como a linguagem contribui para o sofrimento psicológico
De acordo com o modelo de flexibilidade psicológica da ACT, a dor é inerente ao viver humano.
No entanto, há graus de sofrimento desnecessários quando a rigidez psicológica funciona como empecilho para adaptação a contextos internos e externos.
Nesses casos, processos verbais/cognitivos promovem, a partir da fusão ou identificação com regras verbais impraticáveis, restrições aos repertórios humanos em áreas importantes, havendo perda de contato efetivo com resultados de suas ações, inclusive positivos (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021).
Em um exemplo clínico, Hayes (2004) mencionou uma pessoa que sofre de transtorno agorafóbico “presa” em um shopping center.
Provavelmente, a menção ao shopping center não acarretaria, por si só, o medo, mas a emoção e um episódio de pânico poderiam ter sido suscitados por outros eventos que se relacionassem a estar “preso”: uma relação, uma ponte, uma roupa, um campo ou uma palestra, independente de descrição baseada meramente em propriedades formais.
RFT e sua relação com a ACT
Uma clássica analogia amplamente creditada a Russ Harris sugere que “ACT é como dirigir o carro e RFT é saber como o motor funciona”.
Nesse sentido, saber do motor (RFT), para além de dirigir o carro (conduzir o processo ACT), auxiliaria a consertar o carro em casos de quebra, reparos ou aprimoramentos.
Assume-se, então, que a ACT é a aplicação psicológica clínica da RFT, teoria que a embasa, sendo a RFT uma teoria dos contextos, os quais são o foco das intervenções ACT.
Sendo assim, Hayes et al. (2021) ressaltaram que, para a relação entre RFT e ACT ser elucidada, é preciso destacar justamente o controle contextual, característica-chave da teoria.
Em termos de controle contextual, então, as molduras relacionais são regidas pelos contextos funcional e relacional.
O contexto funcional estabelece quais funções passarão por transformações em termos de uma rede relacional, enquanto o contexto relacional estabelece quando e como os eventos se relacionam.
A ACT se apoia e se utiliza dessas duas formas de controle contextual, gerando, com isso, implicações clínicas relevantes.
Considerações finais
Por suas características, a RFT tem sido aplicada clinicamente para melhoria da cognição humana, apresentada em programas de treinamento de habilidades da linguagem, estabelecimento de self mais fortalecido e fortalecimento de competências para solução de problemas (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021).
Não só a ACT, mas também as terapias voltadas ao conteúdo falado, consistem, na perspectiva comportamental contextual, em intervenções no contexto relacional.
Essas intervenções podem ampliar, elaborar ou interconectar redes relacionais, sem que possam, no entanto, eliminar relações cognitivas aprendidas anteriormente (Hayes et al., 2021).
Autoria
Juliana Gomes da Cunha Baltar:
Psicóloga pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Mestre e Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e do Desenvolvimento da UFES. Formação em Terapias Comportamentais Contextuais com ênfase em ACT e FAP pelo Instituto Continuum. Especialização em Terapia Cognitivo Comportamental pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em processo de Certificação Internacional em Terapia de Aceitação e Compromisso com Steven Hayes pela ARTMED. Atualmente é psicóloga clínica e docente de pós-graduação lato sensu da disciplina de ACT.
Eloha Flória Lima Santos:
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld:
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013–2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).