O Modelo Hexaflex: como utilizar essa ferramenta na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

A prática clínica evidencia algo que também pode ser observado na experiência cotidiana: lidar com emoções difíceis não é uma tarefa simples.
Ao longo da vida, somos atravessados por diferentes estados emocionais, como tristeza, ansiedade, raiva, medo e alegria, e desenvolvemos formas de responder a essas experiências internas.
Essas respostas não são aleatórias, mas se organizam a partir de histórias de aprendizagem, contextos socioculturais e repertórios comportamentais construídos ao longo do tempo.
Em muitos casos, o sofrimento psicológico não está apenas ligado à presença de pensamentos e emoções difíceis, mas à maneira como nos relacionamos com esses eventos internos.
Tentativas rígidas de controle, supressão e evitação tendem a restringir o repertório comportamental e afastar o indivíduo de ações alinhadas com seus valores.
Esse padrão é denominado inflexibilidade psicológica, um processo central na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) (Hayes et al., 2006; Hayes, Strosahl et al., 2012/2021).
A ACT se insere no campo das terapias contextuais e baseadas em processos, propondo que o foco não seja a eliminação do sofrimento, mas a transformação da relação com experiências internas.
Seu objetivo central é promover flexibilidade psicológica, definida como a capacidade de entrar em contato com o momento presente de forma aberta e consciente e, a partir disso, orientar o comportamento por valores, mesmo na presença de experiências difíceis (Hayes et al., 2006; Perez e Hayes, 2024).
Na literatura, a inflexibilidade psicológica se associa a maior sofrimento psíquico e diversos transtornos psicológicos (Levin et al., 2014), enquanto a flexibilidade psicológica aparece como fator transdiagnóstico relacionado à melhora de sintomas e bem-estar (Gloster et al., 2020; Macri e Rogge, 2024).
O que é o modelo Hexaflex?
O modelo Hexaflex (Figura 1) é uma representação visual dos seis processos centrais da flexibilidade psicológica na ACT: aceitação, desfusão cognitiva, contato com o momento presente, self-como-contexto, valores e ação comprometida (Hayes et al., 2006).

Figura 1.
Hexaflex ilustrando os seis processos de Flexibilidade Psicológica (esquerda) e de Inflexibilidade Psicológica (direita).
Fonte: Perez e Hayes (2024)
Ele funciona como um mapa clínico que auxilia na formulação de casos e organização de intervenções, permitindo identificar padrões de rigidez e orientar estratégias clínicas voltadas à flexibilidade psicológica.
O Hexaflex simboliza a integração desses processos, que se influenciam mutuamente.
A aceitação, por exemplo, se articula com a redução da esquiva experiencial e com a possibilidade de ação comprometida.
Em contextos de desregulação emocional, uma pessoa que evita sentir ansiedade pode restringir ações alinhadas a vínculos e autonomia, ao mesmo tempo em que aumenta a fusão com pensamentos autodepreciativos, mantendo o ciclo de sofrimento.
O modelo de inflexibilidade psicológica, ou hexaflex invertido
(Figura 1)
, descreve o padrão oposto, caracterizado por esquiva experiencial, fusão cognitiva e comportamento rigidamente guiado pela evitação de desconforto em detrimento de valores (Perez e Hayes, 2024).
Os seis processos do Hexaflex
- Aceitação: Refere-se à disposição de abrir espaço para experiências internas sem tentativa de controle ou evitação. Na prática, envolve reduzir estratégias de fuga experiencial que limitam a vida do paciente;
- Desfusão cognitiva: É a habilidade de relacionar-se com pensamentos como eventos mentais e não como verdades literais;
- Self-como-contexto: Capacidade de observar pensamentos e emoções a partir de uma perspectiva de observação, sem se reduzir a eles;
- Contato com o momento presente: Envolve entrar em contato por meio da atenção flexível e consciente do aqui e agora;
- Valores: São direções de vida baseadas em qualidades de ação que conferem sentido ao comportamento, como ser “corajoso” ou “gentil”;
- Ação comprometida: Construção de comportamentos consistentes com valores, mesmo na presença de desconforto.
Como utilizar o Hexaflex na prática clínica
Na prática clínica, o Hexaflex funciona como uma ferramenta de formulação funcional do caso. Ele permite compreender como o sofrimento é mantido por padrões de rigidez psicológica, orientando intervenções mais precisas.
A seguir, são apresentadas perguntas chaves dos processos de leitura funcional e de mapeamento dos processos psicológicos que podem orientar a aplicação da ferramenta:
Leitura funcional do caso
Perguntas-chave:
- O que a pessoa tenta evitar sentir ou experienciar?
- O que ela deixa de fazer para evitar isso?
- Qual o custo dessa estratégia no funcionamento global?
- Esse comportamento aproxima ou afasta a pessoa de seus valores?
Mapeamento dos processos
Perguntas-chave:
- Há fusão com quais pensamentos?
- Quais experiências internas estão sendo evitadas?
- Que valores estão enfraquecidos ou ausentes?
- O contato com o momento presente está restrito?
- A pessoa se observa ou se identifica com seus conteúdos internos?
A definição do foco clínico envolve a escolha de um processo central do Hexaflex que, se flexibilizado, pode gerar maior impacto no funcionamento psicológico naquele momento.
A pergunta orientadora é: qual processo, se flexibilizado, pode gerar maior mudança neste momento.
A partir do processo identificado, define-se o foco da intervenção clínica. Em casos de maior rigidez associada à fusão cognitiva, por exemplo, o trabalho pode se concentrar na mudança da relação com os pensamentos, reduzindo sua função literal e rígida e favorecendo uma posição mais flexível diante do conteúdo mental.
Estratégias clínicas e principais erros
Por se tratar de uma análise funcional do comportamento, o Hexaflex pode ser aplicado de forma transdiagnóstica em diferentes demandas clínicas marcadas por inflexibilidade psicológica, independentemente do diagnóstico, uma vez que o foco está nos processos e não nas categorias nosológicas.
Nessa perspectiva, a utilidade do modelo está em identificar padrões de funcionamento que atravessam diferentes contextos clínicos, como esquiva experiencial, fusão cognitiva e rigidez comportamental, que se organizam de formas específicas na história de cada indivíduo.
As intervenções são escolhidas conforme o processo predominante de rigidez psicológica.
A desfusão cognitiva envolve exercícios de observação de pensamentos; a aceitação envolve abertura à experiência emocional; o contato com o momento presente envolve práticas de atenção plena; os valores envolvem a clarificação de direções de vida significativas; e a ação comprometida envolve a construção de passos graduais alinhados aos valores identificados.
Metáforas clínicas ajudam a modificar a função dos eventos internos sem confronto direto com seu conteúdo.
Um erro comum é tratar o Hexaflex como checklist de técnicas, perdendo sua função contextual.
Outro é intervir em todos os processos simultaneamente, reduzindo a precisão clínica.
Também ocorre uso excessivamente intelectualizado, desconectado da experiência do paciente.
Considerações finais
O modelo Hexaflex oferece uma estrutura integrada dos processos psicológicos para análise funcional do caso e desenvolvimento de intervenções na ACT, permitindo um olhar para além da descrição de sintomas, por meio da identificação de padrões de rigidez e da promoção da flexibilidade psicológica.
Em vez de eliminar experiências internas difíceis, a ACT propõe ampliar a capacidade de viver de acordo com valores, mesmo na presença delas.
Nesse sentido, o Hexaflex funciona como uma ferramenta clínica que sustenta uma prática contextual, processual e funcional do comportamento
Autoria
Layara Lima Costa:
Psicóloga pela FAESA Centro Universitário (2024), com formação e treinamento intensivo em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pela ACT Courses, conduzidos por Steven C. Hayes, criador da abordagem, e formação em Prevenção ao Suicídio pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui experiência em atendimento hospitalar pelo Hospital Santa Rita de Cássia. Atua como psicóloga clínica com demandas relacionadas à Síndrome de Burnout, autocrítica, transtornos alimentares, depressão e ansiedade.
Eloha Flória Lima Santos:
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld:
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).