De que forma a prática baseada em evidências vai além do protocolo na psicologia

Pontos principais do artigo
- Como surgiram os primeiros fundamentos da prática baseada em evidências
- Por que uma intervenção eficaz nem sempre chega à prática clínica
- Como o cuidado baseado em evidências chegou à psicologia
- Quais são os três componentes da prática baseada em evidências
- Por que o protocolo não substitui o julgamento clínico
Entre a produção de conhecimento científico e sua aplicação no cuidado cotidiano existe uma distância importante. A ciência da implementação aponta uma lacuna de aproximadamente 14 anos entre ciência e prática. Na saúde mental, esse intervalo pode chegar a 24 anos. Além disso, apenas 17% da ciência chega efetivamente à prática.
Esses dados mostram que produzir evidências não é suficiente. Psicólogos e outros profissionais de saúde mental precisam ter acesso ao que funciona, mas também devem aprender a transformar esse conhecimento em decisões clínicas aplicáveis.
Por isso, neste conteúdo, você vai conhecer a trajetória da
prática baseada em evidências
na psicologia, entender por que descobrir o que funciona não garante sua aplicação e compreender como ciência, expertise clínica e características do paciente se integram no cuidado.
Como surgiram os primeiros fundamentos da prática baseada em evidências
A tentativa de aliviar doenças físicas e sofrimento psicológico acompanha a humanidade há milhares de anos. Nas primeiras comunidades, algumas pessoas assumiam o papel de curadoras porque conheciam determinadas plantas ou pareciam obter bons resultados com quem procurava ajuda.
Com o desenvolvimento das civilizações, o conhecimento começou a ser compartilhado de maneira mais organizada. Figuras carismáticas atraíam seguidores pela força de sua personalidade e pelos resultados que aparentemente alcançavam.
Ainda não havia, porém, aquilo que hoje entendemos como ciência. Grande parte do conhecimento era construída por tentativa e erro, e esse processo também podia produzir conclusões equivocadas.
Imagine que uma pessoa com febre recebesse uma poção e melhorasse. A conclusão imediata seria que a intervenção havia provocado a melhora. No entanto, a febre poderia diminuir com o tempo independentemente do que tivesse sido administrado.
Sem métodos capazes de diferenciar a evolução natural de um quadro do efeito real de uma intervenção, práticas ineficazes ou prejudiciais podiam continuar sendo utilizadas durante séculos. Bastava que algumas pessoas melhorassem para que o tratamento permanecesse associado ao resultado.
O avanço da ciência modificou a pergunta. Em vez de observar apenas se alguém melhorava depois de receber uma intervenção, tornou-se necessário demonstrar que a melhora ocorria por causa dela.
Um dos primeiros passos foi aplicar um tratamento, interrompê-lo e observar o que acontecia. Caso o problema voltasse, a intervenção era retomada. Essa lógica se aproxima do que hoje chamamos de delineamentos experimentais de caso único.
Posteriormente, começaram a surgir comparações entre grupos: algumas pessoas recebiam a intervenção, enquanto outras não. A inclusão de grupos de controle tornou possível avaliar os resultados com mais precisão.
Por que uma intervenção eficaz nem sempre chega à prática clínica
Um episódio ocorrido durante as antigas viagens marítimas ilustra a diferença entre encontrar uma intervenção eficaz e incorporá-la à prática.
Em travessias que duravam meses, muitos tripulantes desenvolviam uma condição que hoje sabemos estar relacionada à deficiência de vitamina C. Como frutas e vegetais não podiam ser conservados durante toda a viagem, a alimentação era composta principalmente por carne seca e alimentos que resistiam ao tempo.
Um proprietário de navios suspeitou que o problema pudesse estar relacionado à dieta. Em uma viagem entre a Inglaterra e a Índia, três embarcações mantiveram a alimentação habitual. Em uma quarta, os tripulantes também receberam diariamente uma pequena quantidade de suco de limão.
Quando os navios contornaram o Cabo da Boa Esperança, cerca de metade dos tripulantes das embarcações que mantiveram somente a dieta habitual havia morrido. No navio em que o suco de limão foi oferecido, ninguém morreu.
Naquele momento, ainda não se conheciam a vitamina C nem o mecanismo envolvido. Mesmo assim, uma intervenção eficaz havia sido identificada.
Foram necessários aproximadamente 270 anos, porém, para que o fornecimento de frutas e vegetais se tornasse uma política adotada pela Marinha Britânica. O exemplo mostra que uma descoberta não transforma automaticamente a prática. É preciso disseminá-la, ensiná-la e criar condições para sua implementação.
Como o cuidado baseado em evidências chegou à psicologia
A organização dos sistemas de saúde trouxe uma nova preocupação. Quando governos e instituições passaram a financiar tratamentos, começaram a perguntar quais cuidados estavam sendo oferecidos e que resultados produziam.
Já não bastava pressupor que todo profissional treinado alcançaria os mesmos desfechos. Era preciso observar se clínicos que utilizavam intervenções diferentes obtinham resultados semelhantes e por que alguns profissionais apresentavam um desempenho melhor do que outros.
O acompanhamento desses resultados fortaleceu a decisão de financiar aquilo que demonstrava funcionar. Esse movimento contribuiu para o surgimento do cuidado baseado em evidências, inicialmente na medicina e, depois, na psicologia e na saúde mental.
Na psicologia, essa transformação é relativamente recente. Os ensaios clínicos começaram a ganhar força principalmente a partir da década de 1980. Antes disso, havia pouca segurança para definir quais tratamentos deveriam ser considerados como primeiras opções diante de determinadas condições.
Ao mesmo tempo, também aprendemos a compreender melhor aquilo que estávamos tratando.
O sofrimento provocado por experiências traumáticas sempre existiu, mas o
transtorno de estresse pós-traumático
só passou a ser oficialmente reconhecido como diagnóstico em 1980. Antes dessa definição, expressões como “choque de guerra” e “fadiga de batalha” eram usadas para descrever algumas reações apresentadas por soldados.
As manifestações já estavam presentes. O que ainda não existia era uma compreensão suficientemente organizada de seus sintomas, das diferenças entre os pacientes e dos aspectos que essas experiências tinham em comum.
Definir melhor os problemas clínicos permitiu desenvolver e testar intervenções mais específicas. Por isso, tanto a compreensão de determinadas condições quanto os tratamentos psicológicos baseados em evidências são mais recentes do que muitas vezes imaginamos.
Quais são os três componentes da prática baseada em evidências
A prática baseada em evidências não se resume à escolha de um protocolo. Ela reúne três componentes.
O primeiro é utilizar o tratamento com a melhor evidência disponível. Diretrizes de prática clínica ajudam a identificar quais intervenções devem ser consideradas inicialmente diante de determinadas condições.
O segundo é a
expertise clínica
. O profissional precisa saber implementar o tratamento e utilizar seu julgamento para adaptá-lo à pessoa que está diante dele.
O terceiro componente é justamente o paciente. Pessoas são diferentes, e essas diferenças precisam orientar a aplicação da intervenção.
Um tratamento pode exigir adaptações de acordo com o contexto cultural, as características individuais e a forma como cada pessoa responde ao processo. Uma pessoa mais tensa e perfeccionista, por exemplo, pode precisar que a intervenção seja conduzida de modo diferente de alguém que não apresenta essas características.
Prática baseada em evidências significa, portanto, partir do tratamento com melhor sustentação, implementá-lo com expertise clínica e considerar as particularidades da pessoa atendida.
Por que o protocolo não substitui o julgamento clínico
Não existe um formato único que possa ser aplicado exatamente da mesma maneira a todos os pacientes. Mesmo pessoas com a mesma condição podem precisar de ajustes na condução do tratamento.
É possível preservar a estrutura e os princípios de uma intervenção, mas modificar a ordem de algumas etapas. Cinco pacientes com transtorno do pânico, por exemplo, não necessariamente receberão o protocolo na mesma sequência, ainda que determinados componentes e o número previsto de sessões sejam mantidos.
Para fazer esses ajustes, o clínico precisa conhecer o modelo. Adaptar não significa abandonar a evidência,
mas compreender o tratamento com profundidade
suficiente para implementá-lo diante das particularidades do caso.
O protocolo oferece uma direção baseada no melhor conhecimento disponível. Ele não elimina a responsabilidade do profissional nem transforma o cuidado em uma sequência automática de procedimentos.
A prática clínica se transforma quando a evidência deixa de ser apenas uma informação conhecida pelo profissional e passa a orientar aquilo que ele faz. Reduzir a distância entre ciência e cuidado depende, portanto, não apenas de descobrir o que funciona, mas de formar clínicos capazes de implementar, observar e ajustar esse conhecimento na prática.
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