Terapia Baseada em Processos: o que é, como funciona e quais são seus princípios?

Pontos principais do artigo
- O que é Terapia Baseada em Processos?
- Como surgiu a Terapia Baseada em Processos?
- Quais são os principais princípios da PBT?
- Como a Terapia Baseada em Processos funciona na prática?
- Qual é a relação entre PBT e Terapia Cognitivo-Comportamental?
- Para quem a Terapia Baseada em Processos é indicada?
- Terapia Baseada em Processos e o futuro da prática clínica
A
psicoterapia baseada em evidências
consolidou-se, nas últimas décadas, em torno de protocolos testados em ensaios clínicos para transtornos específicos.
Esse modelo trouxe avanços importantes, mas também deixou perguntas em aberto: por que pacientes com o mesmo diagnóstico respondem de formas tão diferentes ao mesmo tratamento? E como conduzir a clínica quando o quadro não se encaixa em um único protocolo?
É nesse cenário que ganham espaço as terapias baseadas em processos. A
terapia baseada em processos
(PBT, do inglês
process-based therapy
) não se propõe a "substituir" a
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
nem a descartar os diagnósticos.
Ela propõe uma mudança no modo de organizar a ciência e a prática clínica: em vez de perguntar qual protocolo serve para qual diagnóstico, pergunta-se quais processos sustentam o problema desta pessoa, neste contexto, e o que pode modificá-los (Hofmann; Hayes, 2019).
O que é Terapia Baseada em Processos?
A PBT é uma abordagem que organiza avaliação, formulação e intervenção em torno de processos de mudança.
Segundo Hofmann e Hayes (2019), o objetivo é identificar e modificar os processos biopsicossociais que explicam o sofrimento e a mudança de cada indivíduo, com base em teorias e evidências, e não apenas aplicar tratamentos pré-definidos a categorias diagnósticas.
Nesse contexto, processo é uma sequência de mudanças dinâmicas que se desenvolve ao longo do tempo e explica como determinado resultado clínico é produzido ou mantido.
Exemplos frequentemente citados na literatura incluem a flexibilidade cognitiva, a
regulação emocional
, o controle da atenção, a motivação e a formação de hábitos.
Um processo não é sinônimo de técnica: a reestruturação cognitiva, por exemplo, é um procedimento que pode ou não ativar o processo de interesse.
Alguns conceitos ajudam a compreender a proposta:
- Processos de mudança:mecanismos que, quando modificados, tendem a produzir alteração nos resultados clínicos. Na PBT, eles são o alvo do tratamento.
- Individualização:os processos relevantes variam de pessoa para pessoa. Uma abordagemidiográficabusca compreender como eles se organizam e interagem em cada caso.
- Contexto:nenhum processo funciona isoladamente. Fatores como história de aprendizagem, relações sociais, cultura e condições de vida determinam quando e para quem um processo é relevante (Hayes et al., 2019).
- Processos e resultados:o foco não está no processo por si só, mas em sua relação com desfechos clínicos, como redução de sofrimento, ganho de funcionalidade e movimento em direção a valores.
Em síntese, a PBT desloca a pergunta clínica de "qual é o diagnóstico e qual protocolo se aplica?" para "o que mantém este problema e o que pode ser modificado?".
Como surgiu a Terapia Baseada em Processos?
A proposta nasce de uma reflexão sobre os limites do modelo de protocolos para síndromes. Na tradição da terapia baseada em evidências, tratamentos são testados em grupos de pacientes com o mesmo diagnóstico e comparados por meio de médias.
Esse método é valioso, mas informa pouco sobre por que o tratamento funcionou, para quem e por qual via.
Hofmann e Hayes (2018) descrevem a TCC contemporânea como um campo em transição, no qual o interesse se volta dos pacotes de tratamento para os mecanismos que os explicam.
Nesse movimento, as chamadas "terapias de terceira onda" tiveram papel relevante ao chamar atenção para processos como aceitação, atenção plena e valores, sem abandonar o compromisso com a avaliação empírica.
Steven C. Hayes, ligado à
Terapia de Aceitação e Compromisso
, e Stefan G. Hofmann, com longa trajetória na TCC e na psicopatologia, articularam essas discussões em uma proposta comum.
Em trabalhos como
The Future of Intervention Science: Process-Based Therapy
(2019), argumentam que a ciência da intervenção precisa de modelos capazes de integrar teoria, evidência e individualização.
Um dos fundamentos dessa proposta é o modelo evolucionista ampliado, que compreende a mudança a partir de variação, seleção e retenção em contextos, tanto no nível biológico quanto no comportamental e sociocultural.
Quais são os principais princípios da PBT?
Os princípios abaixo sintetizam a proposta e ajudam a distingui-la de uma coleção de técnicas.
Foco no indivíduo.
A unidade de análise é a pessoa, e não o grupo diagnóstico. Isso implica perguntar quais processos são relevantes para este paciente e como se relacionam entre si (Hayes et al., 2019).
Análise de processos relevantes.
O clínico busca compreender quais processos, entre os muitos possíveis, mantêm o problema atual. Essa análise é orientada por teoria e por evidências, e não por intuição isolada.
Consideração do contexto.
O mesmo comportamento pode ter funções diferentes em contextos distintos. Por isso, a análise inclui história de vida, relações, cultura e recursos disponíveis.
Perspectiva biopsicossocial.
Os processos são compreendidos em múltiplos níveis: biológico, psicológico e sociocultural. Na prática, isso impede reduzir o sofrimento a uma única dimensão, seja ela cognitiva, seja emocional.
Integração de conhecimentos de diferentes abordagens.
A PBT não pertence a uma única tradição teórica. Ela se apoia em conhecimentos da TCC, das
terapias contextuais
, da psicologia do desenvolvimento, das neurociências, entre outras áreas.
Utilização de intervenções baseadas em evidências.
As técnicas são selecionadas por sua capacidade de modificar o processo-alvo, e a literatura empírica orienta essa escolha. O critério é a adequação ao processo e ao caso.
Monitoramento contínuo da mudança.
Como a formulação é uma hipótese, ela precisa ser testada. O acompanhamento sistemático permite verificar se o processo está se modificando e se os resultados clínicos acompanham essa mudança.
Como a Terapia Baseada em Processos funciona na prática?
Na
terapia baseada em processos na prática clínica
, o trabalho costuma seguir um fluxo cíclico, e não linear:
- Avaliação:coleta de informações sobre queixas, história, contexto, recursos e objetivos.
- Identificação de processos:levantamento dos processos psicológicos que parecem relevantes para o caso.
- Formulação:organização dessas informações em uma hipótese sobre o que mantém o problema.
- Definição de alvos:escolha dos processos prioritários para a intervenção.
- Seleção de intervenções:escolha de estratégias com respaldo empírico para modificar os alvos definidos.
- Monitoramento:acompanhamento da mudança nos processos e nos resultados clínicos.
- Ajuste do tratamento:revisão da formulação e das estratégias conforme os dados observados.
O aspecto central é a circularidade. O monitoramento pode levar à revisão da formulação, e a formulação revisada pode alterar os alvos e as intervenções.
Esse ciclo é detalhado em outros conteúdos, como formulação de caso e redes de processos, e aqui serve apenas como visão geral.
Para uma apresentação didática do modelo e de sua aplicação, vale consultar Hofmann, Hayes e Lorscheid (2023).
Qual é a relação entre PBT e Terapia Cognitivo-Comportamental?
A PBT tem origem no desenvolvimento contemporâneo da TCC. Hofmann e Hayes (2018) descrevem a chamada "TCC moderna" como um movimento que preserva o compromisso com a ciência e com a avaliação empírica, ao mesmo tempo em que se abre a mudanças no modo de definir alvos e mecanismos de tratamento.
Em termos práticos, a PBT mantém alguns elementos da tradição cognitivo-comportamental e altera outros:
- Continuidade:o compromisso com evidências, a colaboração terapêutica e o uso de estratégias comportamentais e cognitivas.
- Deslocamento:o foco passa de protocolos para diagnósticos específicos para processos de mudança relevantes ao caso.
- Integração:técnicas de diferentes modelos, como reestruturação cognitiva, ativação comportamental, exposição, atenção plena e treino de habilidades, podem ser utilizadas se estiverem alinhadas ao processo-alvo.
Dessa forma, PBT e terapia baseada em processos TCC não são propostas necessariamente excludentes.
Um clínico pode continuar utilizando protocolos ou técnicas da TCC quando essas forem a melhor opção para o processo identificado, e a PBT oferece um referencial para decidir quando e por que utilizá-los.
A PBT é um campo em desenvolvimento. Parte de seus pressupostos é conceitualmente consolidada, como a importância do contexto e da individualização, enquanto outras propostas, como a classificação da psicopatologia com base em processos (Hofmann; Hayes, 2024), ainda estão em construção e demandam mais pesquisa.
Leia também:Terapia Baseada em Processos (PBT): a quebra de paradigmas na Terapia Cognitivo-Comportamental
Para quem a Terapia Baseada em Processos é indicada?
Como a PBT não se define por um diagnóstico específico, seu referencial pode ser aplicado a diferentes demandas clínicas.
Isso é possível porque os processos de interesse, como regulação emocional, flexibilidade cognitiva e padrões de evitação, aparecem em quadros distintos, com formas e pesos diferentes em cada pessoa.
A obra organizada por Melo e Moreno (2026) reúne aplicações do modelo a demandas clínicas prevalentes.
Isso não significa que a PBT seja eficaz para qualquer pessoa ou situação. A literatura sobre sua aplicação ainda está em expansão, e há necessidade de estudos que comparem, de forma sistemática, o trabalho orientado por processos com abordagens já estabelecidas.
Assim, a PBT deve ser compreendida como um referencial de organização do raciocínio clínico, cuja utilidade em cada caso precisa ser avaliada e monitorada.
Terapia Baseada em Processos e o futuro da prática clínica
A terapia baseada em processos propõe uma forma individualizada e orientada por processos de organizar a avaliação e a intervenção psicológica.
Em vez de operar como um novo protocolo, ela oferece uma lógica para decidir o que avaliar, o que formular, o que modificar e como verificar se a mudança está ocorrendo.
Para o psicólogo, isso implica combinar conhecimento teórico, evidências e observação sistemática de cada caso, sem abandonar o que a TCC e outras abordagens já construíram. Como o campo continua em desenvolvimento, acompanhar a literatura e avaliar criticamente os resultados são parte do próprio compromisso da PBT com a ciência.