Pseudociência na psicologia: como reconhecer práticas sem evidências científicas?

Pontos principais do artigo
Se você é da área da psicologia, provavelmente ouviu ou leu sobre a
Prática Baseada em Evidências
(também conhecida pela sigla PBE) como a grande inovação que pode mudar a sua prática clínica.
No entanto, é importante considerar que, como diz a expressão, “
nem tudo que reluz é ouro
”, ou seja, não é por que as pessoas utilizam o termo PBE que de fato estão realizando práticas que sejam efetivamente baseadas em evidências. Então, precisamos começar respondendo à pergunta:
o que é a Prática Baseada em Evidências?
Para isso, é necessário entender que a PBE se sustenta por um tripé composto por:
- As melhores evidências científicas disponíveis;
- A experiência clínica do profissional;
- Os valores, preferências e contexto de vida do paciente.
Com objetivo de entender como é uma atuação efetivamente em
PBE
na psicologia é necessário pensar no processo terapêutico, independentemente da abordagem. (Melnik
et al
., 2014)
Assim que chega um caso, é importante realizar uma entrevista clínica robusta, com objetivo não apenas de entender a demandas, como também também conhecer a história daquela pessoa e os motivos que o levaram a buscar o processo terapêutico.
Desse modo, o profissional consegue informações sobre um dos tripés da PBE: as preferências do paciente. Esse ponto é fundamental, especialmente se pensarmos sobre o engajamento.
Utilizar estratégias que podem ter validade científica comprovada, mas que são contrárias às preferências do cliente, pode ter efeitos iatrogênicos, ou seja, em vez de serem resultados positivos pode causar danos ao indivíduo (Melchert
et al.
, 2024).
Por exemplo, iniciar uma intervenção a partir apenas da queixa inicial ou de um sintoma isolado, sem realizar uma avaliação suficientemente abrangente.
Assim, sem compreender a história de vida, o funcionamento da personalidade e o contexto em que aquela dificuldade se desenvolveu e se mantém, o terapeuta pode escolher intervenções pouco adequadas ou até reforçar padrões disfuncionais.
Entretanto, não podemos considerar somente o paciente, visto que o processo terapêutico também inclui o terapeuta.
Desse modo, para que seja realizada uma prática baseada em evidências, é fundamental que o próprio terapeuta seja capaz de fazer uma autoavaliação sobre suas expertises e compreender se está capacitado para utilizar, ou não, o que a ciência tem comprovado com mais evidências.
Vamos considerar um terapeuta que tem toda a sua formação em
Terapia Cognitivo-Comportamental
e não tem conhecimentos sobre
Terapia Comportamental Dialética (DBT)
, mas está com um caso de Transtorno de Personalidade Borderline, no qual a DBT é padrão-ouro.
Sem se capacitar para tal, é pouco provável que o terapeuta, ao utilizar as estratégias da DBT, tenha o efeito esperado segundo as pesquisas.
Apesar de as diretrizes sobre a PBE serem claras e direcionadas, tendo como o foco o tripé, por que práticas sem evidências continuam sendo utilizadas e ainda disseminadas e divulgadas?
Podemos considerar uma série de razões para este fenômeno acontecer, dentre elas, a
influência das redes sociais
, nas quais o discurso de autoridade tem mais relação com o número de seguidores do que com robustez científica.
Não é incomum que profissionais da psicologia que alcançaram um número grande de seguidores em suas plataformas utilizem termos científicos, mas, quando o discurso é analisado de maneira mais aprofundada, podem estar citando casos anedóticos, ou seja, usando exemplos pontuais da sua atuação clínica e descrevendo como se fossem resultados generalizados e comprovados.
Atualmente, as redes sociais se tornaram um ambiente fértil para a disseminação de pseudociências: ideias, práticas ou intervenções que são apresentadas como científicas, mas não foram submetidas ao rigor do método científico.
Dessa forma, temos uma pergunta para responder:
como diferenciar uma prática científica de uma pseudociência?
Para isso, é preciso compreender que um clínico que queira atuar na PBE precisa ser, também, pesquisador.
No entanto, muitas vezes, as graduações de psicologia não ensinam os futuros psicólogos a fazer buscas bibliográficas com objetivo clínico.
Uma maneira de realizar a busca é por meio do formato de pergunta de pesquisa PICO, que se baseia na identificação de quatro elementos (Nishikawa-Pacher, 2022) :
P — Paciente/População:
Quem é a pessoa ou grupo sobre o qual estou perguntando?
I — Intervenção/Exposição:
O que estou considerando fazer ou investigar?
C — Comparação:
Comparado a quê? Outra intervenção? Tratamento usual? Nenhuma intervenção? Nem sempre precisa existir.
O — Outcome/Desfecho:
O que eu espero modificar ou observar?
Leia também:A Psicologia é Ciência?
Somente depois que o profissional da Psicologia consegue descrever no formato dessa pergunta, é que de fato iremos utilizar plataformas de pesquisas para buscar os artigos científicos de maneira mais assertiva.
Por exemplo, considere que chegou um adolescente com alta desregulação emocional e o terapeuta quer saber como reduzir a desregulação emocional e melhorar o funcionamento utilizando treinamento de habilidades como intervenção e comparar com o tratamento sem o treinamento.
Para colocar em plataformas de busca, podem ser utilizados os termos que se referem aos tópicos do PICO, sendo sempre interessante utilizar os termos em inglês.
Então, nesse caso, o terapeuta pode colocar no buscador científico de preferência (lembre-se, utilize os buscadores que são científicos como PubMed, Cochrane, Scopus, PsycNet, Web of Science e Google Acadêmico) poderia buscar por
("adolescent" OR "teenager") AND ("emotion dysregulation") AND ("skills training" OR "emotion regulation training").
No entanto, realizar essa busca não é a última parte do processo. Isso porque achar um artigo não necessariamente é dizer que há evidência sobre o que estamos pesquisando.
Um passo para ver se o artigo encontrado é confiável é considerar a posição que o periódico do qual o artigo foi publicado está de acordo com o SCImago Journal Rank (SJR), por exemplo.
Os quartis do SCImago define Q1 como os 25% mais bem posicionados da categoria, Q2 entre 25–50%, Q3 → entre 50–75% e Q4 → 25% inferiores. Novamente, o quartil do periódico não determina a qualidade do artigo, mas é uma evidência.

Outro passo é considerar o nível de evidência, para isso podemos considerar a pirâmide do nível de evidência (Lopes
et al.
, 2025).
Para perguntas sobre a eficácia de intervenções, o nível de evidência tende a ser maior em revisões sistemáticas de ECRs com meta-análise, seguidas por revisões sistemáticas de ECRs, ensaios clínicos randomizados, estudos quase-experimentais, estudos de coorte, caso-controle, estudos transversais, séries ou relatos de caso e opiniões de especialistas ou consensos.
Essa hierarquia indica a força do desenho do estudo, mas não substitui a avaliação da qualidade metodológica.
Posteriormente a fazer todos esses passos e ler (não apenas o resumo) do artigo e compreender as evidências, o terapeuta precisa retomar o tripé da PBE, considerando o paciente e o contexto dele para considerar se a intervenção será eficaz.
Considerando o caso que sugerimos a pergunta PICO, poderíamos transformar as evidências em uma hipótese clínica.
Como terapeuta, poderia utilizar o seguinte raciocínio: “Há evidências de que intervenções que incluem treinamento de habilidades de
regulação emocional
podem ser úteis para adolescentes com características semelhantes.
Considerando a formulação deste caso, vou testar a inclusão dessa estratégia e acompanhar os resultados.
A
prática baseada em evidências
não termina com a escolha da intervenção, sendo necessário monitorar os resultados”.
Conforme citado anteriormente, os estudos de caso não possuem nível de eficácia tão alto, no entanto, quando consideramos o discurso de autoridade fortemente difundido em um mundo de redes sociais, muitas vezes os terapeutas são induzidos a entender que os relatos de sucesso são suficientes para comprovar eficácia.
Desse modo, é essencial que os profissionais da psicologia não sejam ludibriados pela autoridade que estão falando, especialmente considerando números de seguidores e não sua trajetória acadêmica e profissional.
Assim, o psicólogo precisa estar em constante formação, construindo senso crítico e raciocínio clínico, sendo capaz de ler as evidências de técnicas e intervenções novas e conseguir avaliar se para o contexto do paciente será útil ou não.
Um fator importante nesse quesito é que muitas das pesquisas de evidências robustas, como meta análises, são realizadas em outros países que não o Brasil, dessa forma é fundamental que o profissional seja capaz de avaliar se há necessidade de adaptações culturais e verificar se há estudos nacionais sobre o tema.
Utilizando as estratégias ensinadas neste artigo esperamos que você seja capaz de desenvolver seu senso crítico para realizar uma prática baseada em evidências de forma efetiva e não utilizar pseudociências ou práticas que não possuam evidências.
Autoria
Juliana Mendes Alves
Psicóloga (CRP 04/22127), neuropsicóloga e psicopedagoga. Especialista em Neurociências pela UFMG e em Atendimento Sistêmico pela PUC Minas. Mestre em Psicologia – Cognição e Comportamento pela UFMG e doutoranda em Psicologia pela PUCRS, com bolsa CAPES. Diretora Clínica do Espaço Integrar e sócia-diretora da T.Ser – Centro de Saberes Compartilhados. Membro-fundadora da DBT-BH e do Grupo de Supervisores Cognitivos de Minas Gerais. Integra a diretoria da AESBE (2026–2028) e da ATC Minas (2025–2027) e é conselheira do CRP. Autora de materiais, livros e capítulos nas áreas de TCC, personalidade, supervisão e psicologia escolar.
Tatiane Castro Moreira
Psicóloga (CRP 04/62708), graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental para Crianças e em Personalidade, com formação em Educação Socioemocional – TRI Preventivo. Coordenadora do Núcleo de Habilidades Socioemocionais (NUHSE) do Espaço Integrar. Associada à AESBE, ATC-Minas e ABDBT. Coautora de materiais e capítulos nas áreas de Terapia Cognitivo-Comportamental e personalidade.
Eloha Flória Lima Santos
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC-USP). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).