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Stefan Hofmann e a Terapia Baseada em Processos: quem criou essa abordagem?

Quem criou a
Terapia Baseada em Processos
? A formulação contemporânea da abordagem foi desenvolvida e sistematizada principalmente por
Stefan G. Hofmann e Steven C. Hayes
, pesquisadores com trajetórias distintas dentro das terapias cognitivo-comportamentais.  

A proposta da TBP é organizar a intervenção clínica com maior atenção a processos de mudança baseados em evidências, considerados em relação aos objetivos, às características e ao contexto de cada pessoa.

Em vez de organizar a tomada de decisão exclusivamente em torno de síndromes e protocolos específicos, a perspectiva pergunta quais processos biopsicossociais devem ser modificados para determinada pessoa, diante de determinado objetivo e contexto (Hofmann; Hayes, 2019; Hayes; Hofmann; Ciarrochi, 2020). 

Isso não significa abandonar diagnósticos, protocolos ou a
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
. A proposta procura ampliar a forma de compreender e organizar intervenções baseadas em evidências, com maior atenção aos processos relacionados à mudança terapêutica. 

Quem é Stefan Hofmann?

Stefan G. Hofmann é psicólogo e pesquisador com extensa produção no campo da Terapia Cognitivo-Comportamental.

Sua pesquisa inclui mecanismos de mudança em psicoterapia, emoções e aplicações clínicas de conhecimentos produzidos pela neurociência. 

Ao longo de sua trajetória acadêmica, esteve ligado à Boston University e posteriormente passou a ocupar a posição de Alexander von Humboldt Professor na Philipps-Universität Marburg, na Alemanha.

Também presidiu organizações científicas como a Association for Behavioral and Cognitive Therapies (ABCT) e atuou como editor-chefe de
Cognitive Therapy and Research
. 

Sua trajetória científica é especialmente relevante para compreender a TBP porque envolve uma questão central para essa perspectiva: compreender não somente se uma intervenção produz resultados, mas também quais processos estão envolvidos na mudança terapêutica. 

 

 

Stefan Hofmann é o criador da Terapia Baseada em Processos?

A Terapia Baseada em Processos não deve ser atribuída exclusivamente a Hofmann. Sua formulação contemporânea está fortemente associada à colaboração científica entre
Stefan G. Hofmann e Steven C. Hayes
. 

Hayes tem uma trajetória importante na ciência comportamental contextual e no desenvolvimento da
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
.

Hofmann, por sua vez, desenvolveu grande parte de sua produção científica no campo da TCC e da investigação dos processos e mecanismos relacionados à mudança terapêutica. 

As diferenças entre essas tradições são relevantes para compreender o desenvolvimento da PBT. Hayes e Hofmann participaram de debates sobre os rumos da TCC e sobre as chamadas terapias de terceira onda.

Posteriormente, seus trabalhos conjuntos passaram a enfatizar um ponto de convergência: a necessidade de estudar de maneira mais sistemática os processos de mudança que podem ser relevantes para pessoas específicas (Hayes; Hofmann, 2017; Hofmann; Hayes, 2019). 

Essa colaboração resultou em trabalhos importantes para a sistematização da perspectiva baseada em processos, como o livro
Process-Based CBT
(Hayes; Hofmann, 2018), o artigo
The Future of Intervention Science: Process-Based Therapy
(Hofmann; Hayes, 2019) e, posteriormente, o desenvolvimento do modelo evolucionista ampliado com Joseph Ciarrochi (Hayes; Hofmann; Ciarrochi, 2020). 

Os próprios autores ressaltam, entretanto, que o interesse pelos processos de mudança não começa com a PBT.

A proposta recupera questões presentes desde os primeiros anos da terapia comportamental, sobretudo a análise funcional e a busca por compreender qual intervenção funciona para determinado indivíduo, em determinado contexto e por quais vias a mudança ocorre. 

Como surgiu a Terapia Baseada em Processos?

A TBP pode ser compreendida como parte de uma trajetória mais ampla das terapias comportamentais e cognitivo-comportamentais. 

  1. Terapias comportamentais:
    consolidaram princípios de aprendizagem, análise funcional e avaliação empírica das intervenções. 
  2. Desenvolvimento da TCC:
    ampliou o campo ao incorporar modelos cognitivos e construiu uma extensa base empírica para diferentes problemas psicológicos. 
  3. Terapias de terceira onda:
    ampliaram o interesse por processos como aceitação,
    mindfulness
    , valores e pela maneira como a pessoa se relaciona com pensamentos e emoções. 
  4. Estudo dos mecanismos de mudança:
    aumentou o interesse por mediação, moderação e por questões relacionadas a como, para quem e em quais circunstâncias as intervenções produzem resultados. 
  5. Questionamentos sobre modelos centrados em síndromes:
    pesquisadores passaram a discutir as limitações de uma ciência das intervenções organizada predominantemente em torno de categorias diagnósticas e protocolos específicos. 
  6. Perspectiva baseada em processos:
    ganha força a proposta de organizar a pesquisa e a prática clínica com maior atenção a processos de mudança empiricamente sustentados. 

Um antecedente histórico recuperado pelos autores é a pergunta de Gordon Paul, formulada na década de 1960.

Em síntese, Paul propunha investigar qual tratamento, realizado por quem, seria mais eficaz para determinado indivíduo, com determinado problema, em determinadas circunstâncias e por quais vias a mudança ocorreria. 

Hayes, Hofmann e Ciarrochi (2020) argumentam que, nas décadas seguintes, a psicologia clínica acumulou conhecimento expressivo sobre os resultados produzidos por intervenções específicas, enquanto questões relacionadas aos processos de mudança e às necessidades de indivíduos específicos permaneceram menos centrais. 

A perspectiva baseada em processos procura recolocar essas questões em posição de destaque. 

Isso não representa uma rejeição dos avanços obtidos com tratamentos protocolizados. A proposta procura acrescentar à investigação dos resultados uma análise mais detalhada de
como a mudança acontece, para quem e em quais condições
. 

O que é a Terapia Baseada em Processos?

Hofmann e Hayes (2019) definem a PBT como o uso, em contextos específicos, de processos baseados em evidências vinculados a procedimentos baseados em evidências, com o objetivo de ajudar pessoas específicas a lidar com seus problemas e promover seu bem-estar. 

A definição pressupõe uma distinção importante entre
processos de mudança
e
procedimentos terapêuticos
. 

Alguns conceitos ajudam a compreender essa diferença. 

  • Processos de mudança:
    são mudanças fundamentadas teoricamente, dinâmicas, progressivas, modificáveis e organizadas em diferentes níveis, relacionadas a resultados desejados. Na perspectiva da PBT, interessam especialmente os processos que podem ser modificados e que são funcionalmente relevantes para os objetivos da pessoa. 
  • Mecanismos de mudança:
    referem-se às relações que procuram explicar como determinada intervenção produz um resultado. A identificação de um mecanismo exige mais do que encontrar uma associação estatística entre variáveis. 
  • Procedimentos terapêuticos:
    são as técnicas ou os métodos utilizados pelo terapeuta. Procedimento e processo não são sinônimos. Um procedimento pode influenciar diferentes processos, e diferentes procedimentos podem ser utilizados para modificar um mesmo processo. 
  • Mediadores:
    são variáveis que ajudam a explicar a relação entre uma intervenção e determinado resultado. Hofmann e Hayes (2019) ressaltam que encontrar um mediador estatisticamente significativo não é suficiente para demonstrar um mecanismo causal. 
  • Moderadores:
    são variáveis capazes de afetar a direção ou a intensidade da relação entre uma intervenção e determinado resultado, ajudando a investigar para quem ou em quais condições uma intervenção pode produzir determinados efeitos. 
  • Processos transdiagnósticos:
    são processos que podem estar presentes em diferentes categorias diagnósticas. O interesse por esses processos contribui para deslocar a atenção de intervenções organizadas exclusivamente por diagnósticos para características funcionais compartilhadas entre diferentes problemas. 
  • Perspectiva idiográfica:
    prioriza a compreensão das relações entre processos dentro do indivíduo e de suas mudanças ao longo do tempo, sem desconsiderar evidências produzidas em estudos com grupos. 

Assim, trabalhar com PBT não significa simplesmente substituir um diagnóstico por uma lista de processos.

A proposta envolve identificar
quais processos biopsicossociais são relevantes para determinada pessoa, diante de seus objetivos e de seu contexto
, e selecionar procedimentos capazes de influenciar esses processos. 

Ong, Hayes e Hofmann (2022) descrevem a PBT como uma abordagem geral e um
“modelo de modelos”
, com ênfase em métodos idiográficos, conceitualização de casos por redes de processos e promoção do bem-estar.

Essa caracterização reforça que a PBT não deve ser entendida simplesmente como mais uma terapia protocolizada. 

 

 

 

Da terapia centrada em protocolos à terapia orientada por processos

Protocolos desenvolvidos para transtornos ou síndromes específicos tiveram e continuam tendo importância para a pesquisa e para a prática baseada em evidências. 

A PBT propõe modificar o nível em que algumas decisões clínicas são organizadas. 

De maneira simplificada, uma lógica predominantemente centrada em protocolos pode ser representada da seguinte forma: 

diagnóstico → protocolo de tratamento → procedimentos → resultado
 

Na perspectiva baseada em processos, a sequência ganha maior individualização: 

objetivos clínicos → avaliação individual e contextual → identificação de processos relevantes → seleção de procedimentos → monitoramento dos processos e resultados
 

Essa representação é apenas didática. Os modelos não precisam ser tratados como mutuamente excludentes. 

Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar relações diferentes entre comportamentos, cognições, emoções, contexto e objetivos terapêuticos.

Por isso, a identificação de um mesmo transtorno não significa necessariamente que os mesmos processos tenham igual relevância nos dois casos. 

Ao mesmo tempo, uma análise baseada em processos pode indicar que um protocolo de tratamento já estabelecido é adequado.

A proposta não exige abandonar protocolos, mas compreender sua utilização dentro de uma formulação funcional e individualizada. 

Qual foi a contribuição de Hofmann para a Terapia Baseada em Processos?

A contribuição de Stefan Hofmann para a PBT não está na criação de uma técnica terapêutica específica. 

Sua participação está relacionada à construção e à sistematização de uma perspectiva que procura organizar a ciência das intervenções em torno dos processos de mudança. 

Sua produção científica anterior já incluía interesse pelos mecanismos relacionados à mudança terapêutica.

Outro exemplo relevante é o trabalho de Hofmann, Curtiss e McNally (2016), que apresenta uma perspectiva de redes complexas para a ciência clínica. 

Nesse modelo, transtornos podem ser compreendidos como sistemas constituídos por elementos inter-relacionados.

Essa perspectiva oferece uma alternativa a modelos nos quais os sintomas são entendidos exclusivamente como manifestações de uma entidade latente subjacente. 

Posteriormente, Hofmann participou diretamente da formulação e disseminação da perspectiva baseada em processos em parceria com Hayes e outros pesquisadores. 

O livro
Learning Process-Based Therapy
(Hofmann; Hayes; Lorscheid, 2021) representa uma etapa dessa trajetória ao apresentar ferramentas destinadas à aplicação clínica dos princípios da PBT. 

O que a Terapia Baseada em Processos muda na prática clínica?

Na proposta dos autores, a prática orientada por processos atribui maior importância à formulação individualizada, à identificação dos processos relacionados aos objetivos terapêuticos e ao acompanhamento de sua evolução durante o tratamento. 

Isso pode envolver: 

  • avaliar processos relacionados à manutenção do problema e à mudança desejada; 
  • selecionar procedimentos de acordo com os processos considerados relevantes; 
  • acompanhar indicadores de mudança ao longo do tratamento; 
  • revisar a formulação e a intervenção quando necessário; 
  • integrar procedimentos de diferentes modelos quando houver fundamentação teórica e empírica; 
  • considerar o contexto e os objetivos específicos de cada pessoa. 

A perspectiva idiográfica tem papel importante nesse modelo. Hayes e Hofmann (2019) defendem que uma abordagem baseada em processos precisa analisar relações relevantes no nível do indivíduo, evitando assumir automaticamente que relações encontradas entre grupos ocorrem da mesma maneira dentro de cada pessoa. 

É importante, entretanto, separar a
proposta teórica e metodológica da PBT
da demonstração de sua
superioridade clínica
. 

Os trabalhos citados apresentam fundamentos conceituais, modelos e aplicações da perspectiva baseada em processos, mas não permitem concluir que a PBT, considerada como um sistema integrado, seja superior aos tratamentos protocolizados. 

Esse é um ponto importante para profissionais da saúde mental. A adoção de um modelo mais individualizado precisa permanecer submetida aos mesmos critérios de investigação empírica aplicados às demais propostas de intervenção. 

 

 

Por que a Terapia Baseada em Processos ganhou espaço na psicoterapia?

O interesse pela PBT acompanha uma questão mais ampla da ciência das intervenções psicológicas. 

Saber se uma intervenção produz resultados continua sendo fundamental. Ao mesmo tempo, pesquisadores têm buscado compreender
quais processos participam desses resultados, para quais pessoas e em quais contextos
. 

Hofmann e Hayes (2019) defendem que uma ciência mais orientada por processos pode aumentar a atenção a mediadores, moderadores, análise funcional e métodos idiográficos.

Trabalhos posteriores ampliaram essa perspectiva ao propor formas de organizar processos de mudança em modelos multidimensionais e multiníveis (Hayes; Hofmann; Ciarrochi, 2020). 

Nesse desenvolvimento, Stefan G. Hofmann e Steven C. Hayes tiveram papel central na sistematização da perspectiva contemporânea da Terapia Baseada em Processos. 

Para profissionais da saúde mental, conhecer essa proposta permite acompanhar um debate relevante da psicoterapia baseada em evidências sobre individualização, processos de mudança, análise funcional e integração entre pesquisa e prática clínica. 

A PBT, contudo, deve ser apresentada como uma perspectiva em desenvolvimento, cujas proposições precisam continuar sendo avaliadas empiricamente. 

Perguntas Frequentes