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Usos clínicos da albumina endovenosa

A albumina é a principal proteína plasmática e determinante de 75% da pressão oncótica do sangue. Ou seja, é a grande responsável pela manutenção do volume intravascular graças ao seu elevado peso molecular e à alta concentração. 

O uso terapêutico da albumina começou durante a Segunda Guerra Mundial como expansor volêmico em vítimas de trauma. A partir dessas primeiras experiências, a reposição passou a ser empregada com o objetivo de corrigir a hipoalbuminemia e, teoricamente, melhorar desfechos clínicos. No entanto, percebeu-se com o tempo que simplesmente normalizar os níveis de albumina não reverte o processo de adoecimento nem altera sua fisiopatologia subjacente. Ou seja, sua queda, na maioria dos casos, é mais um marcador de gravidade do que evento causador da doença. Esse entendimento levou a uma progressiva restrição de suas indicações. 

Estudos indicam que entre 50% e 70% das prescrições de albumina são inadequadas. Além de seu alto custo, a medicação não é isenta de riscos, que incluem sobrecarga volêmica, hemodiluição, anafilaxia e até gangrena. Diante desse cenário de benefícios limitados, custo elevado e potenciais efeitos adversos, torna-se fundamental que o médico que atua no ambiente hospitalar conheça bem as indicações apropriadas do uso da albumina, tema que será abordado nesta postagem. 

Aspectos fisiológicos e fisiopatológicos

A albumina corresponde a aproximadamente 50% de todas as proteínas plasmáticas e é responsável por cerca de 70% da pressão oncótica do plasma. Trata-se de uma macromolécula com alto peso molecular, composta por 585 aminoácidos organizados em três domínios. Sua produção é exclusivamente hepática, sendo sintetizada integralmente pelos hepatócitos.  

Embora sua principal função seja manutenção da pressão oncótica, a albumina exerce diversas outras funções fisiológicas. Atua como proteína carreadora de uma ampla gama de substâncias, tanto endógenas (como hormônios tireoidianos, colesterol e ácidos graxos) quanto exógenas (fármacos). Além disso, tem importante ação antioxidante, contribuindo para a depuração de radicais livres e substâncias tóxicas. Também participa da modulação da resposta inflamatória, da imunidade inata e adaptativa, e atua como um dos reguladores do equilíbrio ácido-base no sangue. 

Sua concentração sérica costuma estar reduzida em diversos estados patológicos, especialmente em doenças crônicas e avançadas, sendo considerada um marcador de pior prognóstico. Em idosos, por exemplo, a hipoalbuminemia associa-se a complicações como hospitalização prolongada, reinternações frequentes e aumento da mortalidade. Situação semelhante é observada em pacientes com COVID-19, neoplasias ou cirrose: quanto menor o nível de albumina, pior tende a ser a evolução clínica. 

A vasodilatação esplâncnica acompanhada de hipoalbuminemia é um dos mecanismos centrais envolvidos na disfunção hemodinâmica da cirrose. Esse processo leva à redução do volume circulante efetivo, desencadeando uma cascata de eventos que culmina na retenção hídrica característica da doença. Nesse contexto, a correção da hipoalbuminemia atua diretamente sobre os mecanismos fisiopatológicos que levam à descompensação clínica. Mais recentemente, a identificação de inflamação sistêmica e disfunção imune associadas à cirrose reforça ainda mais o papel potencial da albumina no controle global da doença. 

Albumina na cirrose

Como vimos, o mecanismo fisiopatológico básico da cirrose tem íntima relação com hipovolemia efetiva e hipoalbuminemia. Não surpreendentemente, os principais usos comprovadamente eficazes de albumina na prática clínica são nesta doença. A
Tabela 1
resume as indicações, doses e benefícios esperados. 

Tabela 1.
Principais indicações do uso de albumina na cirrose. Extraído e adaptado da referência 1. 

Os usos bem estabelecidos da albumina concentram-se em situações agudas e de curta duração. Nas
paracenteses de grande volume
(retirada > 5 litros), o risco é de disfunção hemodinâmica com agravamento da hipovolemia e retenção de líquidos. A infusão de albumina reduz a chance de insuficiência renal e até de morte. Na
peritonite bacteriana espontânea
, quadro de alta mortalidade, a administração de albumina também protege contra perda de função renal e morte. Já na
síndrome hepatorrenal
, na ausência de outra causa para a disfunção renal, a albumina em associação com terlipressina reduz o risco de progressão da insuficiência e melhora a sobrevida. 

 

Outras indicações foram avaliadas, mas sem comprovação de benefício. Em situações agudas, não houve eficácia em encefalopatia hepática, infecções extraperitoneais ou para hospitalizações por descompensação da cirrose (além das causas citadas acima). No uso crônico, alguns estudos sugeriram benefício em pacientes ambulatoriais, como um ensaio italiano que mostrou redução de mortalidade após 17 meses de tratamento; porém outros não confirmaram esses resultados. Assim, a indicação permanece não estabelecida e, diante do alto custo, não é recomendada.  

A albumina além da cirrose

Pacientes criticamente doentes
 

Além da cirrose, a albumina também foi estudada em pacientes críticos na terapia intensiva, principalmente como expansor volêmico. A ideia era utilizar uma solução que permanecesse mais tempo no espaço intravascular em comparação aos cristalóides. No entanto, ensaios clínicos randomizados não mostraram superioridade da albumina sobre os cristalóides. Metanálises reforçam que, embora seja segura, não há benefício consistente em sobrevida. Algumas análises de subgrupo sugerem possível vantagem em casos de sepse grave, mas isso não se confirmou de forma ampla. Assim, a albumina não deve ser usada rotineiramente no choque séptico ou em outras formas de choque indiferenciado. A exceção pode ser o paciente com cirrose e choque séptico, situação em que seu uso pode ser considerado. 

Potenciais indicações
 

Alguns usos da albumina ainda estão em investigação e precisam de mais estudos. Na síndrome nefrótica com edema, a associação com diuréticos pode trazer benefício quando os níveis séricos estão muito baixos, mas faltam ensaios clínicos de qualidade. Em pacientes com grandes queimaduras, estudos indicam que a infusão precoce de albumina pode reduzir a quantidade de cristalóides necessária, diminuir a pressão intra-abdominal e o risco de síndrome compartimental. Em cirurgia cardíaca, alguns trabalhos preliminares sugeriram vantagens hemodinâmicas e menor risco de complicações, mas um estudo experimental mais recentes não monstrou impacto relevante em desfechos clínicos. No contexto de transplante hepático, a albumina é utilizada como reposição volêmica e para controle de ascite e edema, embora os resultados sejam controversos e sem benefício consistente em função do enxerto ou sobrevida. Em suma, vale destacar que todas essas indicações são consideradas experimentais ou não recomendadas.  

Usos inapropriados
 

Talvez tão importante quanto reconhecer o benefício da albumina na cirrose, é entender que alguns usos (e frequentemente prescritos, como vimos) são inapropriados. O principal desses talvez seja a administração reativa para pacientes com hipoalbuminemia; mesmo não sendo exatamente um evento comum, isso deve ser de todo evitado. Além deste exemplo, outras situações devem ser evitadas, como desnutrição, pancreatite aguda, cirurgias de grande porte. Realização de paracentese de grande volume por outras causas que não cirrose e especificamente para ascite por câncer também não deve gerar a administração de albumina.  

Conclusão

O benefício claro da albumina está no tratamento de algumas complicações da cirrose, como paracentese de grande volume, peritonite bacteriana espontânea e síndrome hepatorrenal. Fora desse cenário, evidências não demonstraram melhora consistente de desfechos clínicos, e muitos usos ainda carecem de estudos de qualidade. Reconhecer as indicações apropriadas é essencial para evitar prescrições inadequadas, reduzir riscos e otimizar recursos.