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Reabilitação após procedimento TAVI e cirurgia valvar

O avanço das terapias estruturais cardíacas ampliou significativamente as possibilidades de tratamento para pacientes com doenças valvares.  

Procedimentos minimamente invasivos, como o implante transcateter de valva aórtica (TAVI), passaram a coexistir com as cirurgias valvares tradicionais e transformaram não apenas o manejo médico, mas também o papel da reabilitação fisioterapêutica.  

Embora ambos tenham como objetivo restaurar a função cardíaca e melhorar a qualidade de vida, os perfis clínicos dos pacientes, o impacto fisiológico dos procedimentos e o ritmo esperado de recuperação podem ser bastante diferentes.  

Nesse contexto, o fisioterapeuta precisa compreender quais critérios devem orientar a 
mobilização precoce
, o treinamento funcional e o acompanhamento da recuperação.  

Entendendo os procedimentos 

O TAVI é um procedimento percutâneo realizado, em geral, em pacientes mais idosos, frágeis e com maior carga de comorbidades, frequentemente selecionados por risco cirúrgico elevado ou intermediário.  

Por ser menos invasivo, costuma estar associado a menor tempo de internação, menor injúria à região torácica e recuperação inicial mais rápida, embora ainda exista risco de complicações vasculares, distúrbios de condução e instabilidade hemodinâmica.  

Já a cirurgia valvar convencional envolve esternotomia ou outra abordagem cirúrgica, uso de circulação extracorpórea em muitos casos e maior impacto respiratório e musculoesquelético no pós-operatório imediato.  

Na prática fisioterapêutica, isso muda o raciocínio clínico. No TAVI, a grande questão costuma ser a retomada precoce da mobilidade com segurança, considerando fragilidade, hipotensão ortostática, delirium e limitação funcional prévia.  

Na cirurgia convencional, além da mobilidade, a fisioterapia precisa lidar com dor esternal, 
higiene brônquica
, redução da capacidade ventilatória, proteção da ferida operatória e maior risco de 
perda funcional por imobilidade
.  

Repercussões imediatas 

No pós-operatório imediato, as repercussões fisiológicas refletem tanto o procedimento quanto o perfil do paciente.  

Em ambas as intervenções, é comum observar fadiga, intolerância ao esforço, alterações pressóricas, taquicardia ou bradicardia, além de limitação por sintomas respiratórios e medo de movimentar-se.  

No TAVI, a recuperação tende a ser mais rápida, mas a mobilização deve respeitar critérios de estabilidade vascular, acesso femoral e integridade hemodinâmica.  

Na cirurgia valvar, a queda da capacidade inspiratória, a dor, a tosse ineficaz e a redução da 
expansibilidade torácica
 aumentam o risco de atelectasia e outras complicações pulmonares, o que reforça a importância das condutas respiratórias desde cedo.  

Em pacientes frágeis, a perda de função pode ocorrer em poucos dias, especialmente quando há restrição prolongada ao leito ou baixa ingesta energética. Por isso, o fisioterapeuta deve pensar em reabilitação desde a fase aguda, e não apenas após a alta.  

Papel da fisioterapia 

A fisioterapia cardiovascular participa de todas as fases da recuperação
: avaliação precoce, mobilização no leito, ortostatismo, marcha assistida, recondicionamento físico e retorno gradual às atividades de vida diária.  

No ambiente hospitalar, a prioridade é reduzir complicações do imobilismo, preservar autonomia e identificar precocemente sinais de intolerância ao esforço.  

Após a alta, o foco passa a ser recuperar capacidade funcional, condicionamento aeróbico, força muscular, equilíbrio e confiança para executar tarefas cotidianas.  

Em pacientes submetidos ao TAVI, a reabilitação pode começar muito precocemente, desde que os critérios de segurança estejam presentes.  

Em pacientes após cirurgia valvar, o início também deve ser precoce, mas frequentemente exige maior atenção à dor, ao controle ventilatório e às restrições de proteção esternal.  

Em ambos os casos, a progressão deve ser guiada pela resposta clínica e não por calendário fixo.  

Avaliação fisioterapêutica 

avaliação
 deve incluir sinais vitais, padrão respiratório, percepção de esforço, dor, nível de consciência, mobilidade, equilíbrio, força funcional e tolerância ao ortostatismo e à marcha.  

Em pacientes TAVI, vale observar hipotensão ortostática, sangramento no sítio de punção, alterações de ritmo e sinais de intolerância ao esforço logo nas primeiras mobilizações.  

Na cirurgia valvar, além desses elementos, é essencial monitorar dor torácica, ventilação superficial, tosse, secreção e proteção da cicatriz cirúrgica.  

Ferramentas como teste de caminhada de 6 minutos, Barthel Index, velocidade de marcha, escala de Borg e medidas simples de desempenho funcional ajudam a documentar evolução e orientar metas.  

Em pacientes idosos e frágeis, a avaliação de fragilidade e de capacidade funcional prévia é decisiva para definir metas realistas e seguras.  

O objetivo não é apenas “andar mais”, mas recuperar independência com o menor custo fisiológico possível.  

 

 

Progressão do exercício 

A progressão deve seguir uma lógica de baixa dose e alta vigilância no início, evoluindo para treino aeróbico e resistido conforme estabilidade clínica e funcional.  

Ainda durante a internação, a mobilização pode começar com mudanças de decúbito, sedestação, ortostatismo e marcha curta, progredindo para distâncias maiores e mais autonomia nas atividades de autocuidado.  

Após a alta, programas estruturados de reabilitação cardíaca tendem a melhorar capacidade funcional e independência nas intervenções valvares.  

Para o treino aeróbico, a intensidade deve ser individualizada por sintomas, sinais vitais e percepção subjetiva de esforço, evitando prescrição rígida em pacientes muito descondicionados.  

O fortalecimento muscular deve contemplar grandes grupos musculares, com progressão gradual e atenção especial à fadiga e à estabilidade hemodinâmica.  

Em cirurgia valvar, a transição para exercícios de maior demanda precisa respeitar dor, cicatrização e eventuais restrições de membros superiores.  

Complicações frequentes 

As complicações que mais interferem na reabilitação incluem fadiga persistente, instabilidade hemodinâmica, complicações pulmonares, perda funcional e descondicionamento.  

No TAVI, complicações vasculares, distúrbios de condução e fraqueza relacionada à fragilidade podem atrasar a progressão.  

Na cirurgia convencional, dor, atelectasia, retenção de secreção e limitação da mecânica ventilatória são particularmente relevantes.  

Também é frequente subestimar o impacto do delirium, da baixa reserva funcional e do medo de movimentar-se, especialmente em idosos.  

Esses fatores podem gerar um ciclo de inatividade, 
perda muscular
 e dependência prolongada, mesmo quando o procedimento em si foi tecnicamente bem-sucedido. A fisioterapia deve atuar para quebrar esse ciclo precocemente.  

Educação e alta 

A educação do paciente precisa começar ainda no hospital. O fisioterapeuta deve orientar sobre sinais de alerta, importância da caminhada regular, adesão aos exercícios, cuidado com a ferida operatória, uso correto de dispositivos auxiliares e retorno progressivo às atividades.  

Em pacientes frágeis, a participação da família é fundamental, pois a continuidade do cuidado depende muito do apoio no domicílio.  

Após a alta, recomenda-se manter acompanhamento em reabilitação cardiovascular sempre que possível, com reavaliações periódicas de capacidade funcional e sintomas.  

A meta é transformar a alta em transição de cuidado, e não em encerramento abrupto do processo terapêutico.  

Isso é especialmente importante nos pacientes pós-TAVI, que frequentemente recebem alta mais cedo, mas ainda apresentam limitação funcional importante.  

Erros comuns 

Um erro frequente é tratar TAVI e cirurgia valvar como se exigissem a mesma progressão terapêutica.  

Outro erro é focar apenas na estabilidade hemodinâmica e ignorar a capacidade funcional, o que pode levar à alta com independência muito abaixo do potencial do paciente.  

Também é problemático prescrever exercício sem considerar fragilidade, dor, perfil de comorbidades, função prévia e objetivos reais de vida diária.  

Individualizar significa ajustar o plano ao procedimento, ao tipo de prótese, ao acesso utilizado, à condição respiratória, ao grau de fragilidade e ao contexto social do paciente.  

Em termos práticos, isso exige reavaliação frequente e tomada de decisão clínica baseada em resposta ao tratamento, e não apenas em protocolos genéricos.  

Perguntas Frequentes