Traqueostomia à beira do leito no CTI: o que o fisioterapeuta deve saber

A traqueostomia à beira do leito tornou-se uma prática cada vez mais frequente nos centros de terapia intensiva, especialmente diante do aumento da complexidade dos pacientes críticos e da necessidade de ventilação mecânica prolongada.
Nesse cenário, o fisioterapeuta assume um papel estratégico não apenas na condução ventilatória, mas também na avaliação funcional, no manejo das secreções e no processo de desmame da ventilação mecânica.
Contudo, apesar da rotina crescente do procedimento dentro do CTI, ainda existem dúvidas importantes sobre indicações, timing ideal, riscos, cuidados pós-procedimento e impacto clínico da traqueostomia precoce.
Afinal, o que o fisioterapeuta precisa dominar para atuar de forma segura, crítica e integrada nesse contexto?
Papel no paciente crítico
No paciente internado em CTI, a traqueostomia pode reduzir o desconforto da intubação prolongada, facilitar a higiene das vias aéreas, favorecer a mobilização e permitir transições mais seguras no desmame ventilatório.
Ela não deve ser vista como um “desfecho” isolado, mas como parte de uma estratégia assistencial mais ampla, que envolve ventilação, sedação, reabilitação e comunicação.
O fisioterapeuta contribui para identificar quando a via aérea artificial passa a ser mais vantajosa que o tubo orotraqueal, considerando evolução clínica, tolerância ao suporte ventilatório e reserva funcional.
Indicações clínicas
As indicações clássicas incluem ventilação mecânica prolongada, falha esperada ou repetida de desmame, necessidade de aspiração frequente de secreções, proteção de via aérea em pacientes com rebaixamento de consciência e obstrução de via aérea superior.
Em pacientes neurológicos, a decisão costuma ser influenciada por disfagia, incapacidade de proteger a via aérea e necessidade de suporte respiratório sustentado.
Na prática, o raciocínio deve combinar prognóstico respiratório, neurológico e funcional, e não apenas a duração da intubação.
Precoce versus tardia
A literatura recente sugere benefícios potenciais da traqueostomia precoce em subgrupos específicos, como redução do tempo de ventilação, menor permanência em UTI e menor incidência de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), embora sem benefício consistente em mortalidade.
Uma revisão de 2025 mostrou queda da PAV com traqueostomia precoce, mas concluiu que a evidência ainda é insuficiente para afirmações definitivas sobre desfechos duros.
Assim, o timing ideal deve ser individualizado; a decisão precoce pode ser útil quando há alta probabilidade de ventilação prolongada, mas não deve ser tratada como regra universal.
Segurança à beira do leito
A traqueostomia à beira do leito é amplamente utilizada em UTI por reduzir transporte intra-hospitalar e seus riscos associados, desde que haja equipe treinada e ambiente controlado.
Os critérios de segurança incluem estabilidade hemodinâmica relativa, ventilação e oxigenação aceitáveis, avaliação anatômica da via aérea, correção de coagulopatia relevante e disponibilidade imediata de material para via aérea difícil e eventual conversão para técnica cirúrgica.
Também é fundamental confirmar que o procedimento será realizado com monitorização contínua, sedação e analgesia adequadas e plano de contingência para sangramento, dessaturação ou falso trajeto.
Atuação fisioterapêutica
Antes do procedimento, o fisioterapeuta participa da análise da dependência ventilatória, da mecânica respiratória, da tolerância a períodos de respiração espontânea e do volume de secreções, o que ajuda a definir se o paciente já apresenta perfil para traqueostomia.
Durante o procedimento, sua presença é útil para vigilância ventilatória, ajuste do ventilador, reconhecimento precoce de dessaturação, hipoventilação e necessidade de recrutamento ou aspiração.
Após a traqueostomia, o foco passa a ser cuidado da via aérea, monitorização da permeabilidade da cânula, umidificação, aspiração técnica e progressão do desmame ventilatório.
Ajustes ventilatórios
O paciente traqueostomizado requer revisão da estratégia ventilatória, porque a resistência da via aérea e a dinâmica do fluxo mudam de forma importante após o procedimento.
Em geral, busca-se reduzir gradualmente o suporte, testar modos assistidos mais leves e avaliar tolerância a períodos de ventilação espontânea, sempre com monitorização do trabalho respiratório, da frequência respiratória, do volume corrente e sinais de fadiga.
A pressão do cuff também deve ser acompanhada para evitar lesão traqueal, e a umidificação adequada é essencial para prevenir tampões de muco e reduzir a necessidade excessiva de aspiração.
Comunicação e deglutição
Traqueostomia não significa impossibilidade de comunicação. Sempre que houver estabilidade clínica, a deflação do cuff, a válvula unidirecional e estratégias de comunicação alternativa podem restaurar parcialmente a fala e melhorar a participação do paciente no cuidado.
A reabilitação da deglutição deve ser antecipada, porque disfagia e traqueostomia frequentemente coexistem no CTI, especialmente em pacientes neurológicos e após intubação prolongada.
Nesse ponto, a atuação integrada com fonoaudiologia é decisiva para avaliar a segurança da via oral, o manejo de secreções e a progressão alimentar.
Complicações e alertas
As complicações imediatas incluem sangramento, pneumotórax, deslocamento da cânula, falsa passagem, hipóxia e instabilidade hemodinâmica.
Entre as complicações tardias, destacam-se infecção do sítio, obstrução por secreção, estenose traqueal, lesão por pressão do cuff e dificuldade para decanulação.
Sinais de alerta como, aumento súbito da pressão de pico, escape aéreo, queda de saturação, ruído expiratório anormal, sangue no estoma ou dificuldade para aspirar secreção, devem ser tratados como potenciais emergências de via aérea.
Humanização e prognóstico
O impacto da traqueostomia vai além do ventilador. Em muitos pacientes, ela representa uma oportunidade de reduzir sedação, melhorar conforto, facilitar interação com a equipe e permitir maior participação na reabilitação precoce.
A humanização nesse contexto envolve comunicação clara com a família, metas realistas, planejamento de desmame e reconhecimento de que o objetivo não é apenas sobreviver ao CTI, mas recuperar função e dignidade.
Quando bem conduzida, a traqueostomia pode acelerar transições assistenciais e favorecer desfechos funcionais mais favoráveis em pacientes selecionados.
Para o fisioterapeuta, dominar a traqueostomia à beira do leito significa integrar fisiologia respiratória, monitorização clínica, ventilação mecânica, manejo de secreções, reabilitação e comunicação interdisciplinar.
A decisão sobre indicação e timing deve ser individualizada, baseada em prognóstico e segurança, e não apenas em rotina institucional.
No CTI, a melhor prática é aquela que combina técnica, vigilância e colaboração multiprofissional, com foco em desmame seguro, prevenção de complicações e recuperação funcional.