O papel do enfermeiro na cessação do tabagismo: práticas e resultados

Contextualização do tabagismo como problema de saúde pública
O tabagismo ainda é uma das principais causas de morbimortalidade evitável no mundo. De acordo com pesquisas recentes, aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas utilizam algum produto de tabaco, o que acarreta milhões de mortes anuais ligadas a doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer.
No Brasil, embora existam tendências de redução do consumo ao longo das décadas, a prevalência ainda permanece significativa, especialmente em algumas regiões e grupos sociais com menor escolaridade ou renda. Estratégias governamentais têm incluído políticas de taxação, restrição de publicidade e ambientes livres de fumantes, mas há lacunas no alcance, principalmente em grupos vulneráveis.
O uso do tabaco está associado a várias doenças crônicas — como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), câncer de pulmão, doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral — que demandam cuidados de longo prazo, internações, medicamentos, procedimentos invasivos, além de elevar os custos com hospitalizações e complicações.
Além dos custos diretos (tratamentos, hospitalizações, medicamentos), há custos indiretos consideráveis: afastamentos do trabalho, perda de produtividade e invalidez precoce, por exemplo. O peso financeiro para os sistemas públicos de saúde é elevado, tanto no Brasil quanto em outros países.
Os enfermeiros estão em posição estratégica para atuar na linha de frente das intervenções de cessação do tabagismo: eles têm contato direto com pacientes em diferentes níveis de atenção, o poder de influenciar comportamento, a capacidade de educar, motivar, acompanhar e monitorar. Intervenções lideradas por enfermeiros mostram-se eficazes, inclusive aumentando as taxas de abandono do tabagismo em seguimento de 6 meses.
Estratégias de cessação de tabagismo conduzidas pela enfermagem
Uma intervenção breve (“brief advice”) é uma das estratégias mais usadas no cuidado primário: é uma conversa rápida, estruturada, na qual o enfermeiro pergunta sobre uso do tabaco, aconselha a deixar de fumar, oferece ajuda, etc. Essas intervenções têm impacto significativo na motivação inicial para cessar. Por exemplo, meta-análises recentes indicam que enfermeiros que iniciam intervenções aumentam a probabilidade de abandono do tabagismo em 6 meses, comparativamente ao cuidado usual.
Protocolos baseados em evidências 5 As e 5 Rs
O modelo dos 5 As é uma estratégia estruturada utilizada por profissionais de saúde, especialmente enfermeiros, para orientar fumantes que já demonstram interesse ou disposição em parar de fumar.
A sigla representa as etapas Ask (Perguntar), Advise (Aconselhar), Assess (Avaliar), Assist (Ajudar) e Arrange (Acompanhar), e tem como objetivo tornar a abordagem breve, sistemática e eficaz.
O primeiro passo é perguntar (Ask) a todos os pacientes, de forma rotineira, se fazem uso de tabaco. Essa pergunta deve ser incorporada ao acolhimento e registrada no prontuário, pois permite identificar fumantes e acompanhar sua evolução ao longo do tratamento.
Em seguida, o enfermeiro deve aconselhar (Advise) a cessação do tabagismo, de maneira firme, empática e personalizada. É importante evitar julgamentos e utilizar linguagem motivadora, mostrando os benefícios reais da mudança, como melhora da respiração e redução do risco de doenças cardiovasculares.
A terceira etapa, avaliar (Assess), consiste em identificar o grau de disposição do paciente para deixar de fumar. Essa avaliação ajuda a compreender o estágio de mudança em que o indivíduo se encontra — se ele ainda está apenas pensando em parar, se já se decidiu, ou se está pronto para iniciar o processo imediatamente.
Com base nessa avaliação, o enfermeiro pode ajudar (Assist) o paciente a definir um plano de ação, incluindo a escolha de uma data para parar, estratégias de enfrentamento da abstinência e possíveis apoios farmacológicos, como adesivos de nicotina ou bupropiona.
Por fim, o profissional deve acompanhar (Arrange) o paciente de forma contínua. O acompanhamento pode ser feito por consultas presenciais, telefonemas ou mensagens, com o objetivo de reforçar o apoio, prevenir recaídas e ajustar o plano terapêutico quando necessário. Essa etapa é essencial para garantir a manutenção da abstinência e fortalecer a confiança do paciente no processo.
Em resumo, os 5 As estruturam um plano completo de intervenção que pode ser aplicado em poucos minutos, integrando acolhimento, aconselhamento, planejamento e seguimento de forma coordenada — elementos centrais na atuação do enfermeiro na cessação do tabagismo.
Já o modelo dos 5 Rs é direcionado a pacientes que ainda não estão prontos para parar de fumar ou que demonstram resistência à mudança.
As letras representam Relevance (Relevância), Risks (Riscos), Rewards (Recompensas), Roadblocks (Barreiras) e Repetition (Repetição). Esse método tem como foco aumentar a motivação e promover reflexão, sem impor o abandono imediato.
A primeira etapa, relevância (Relevance), consiste em ajudar o paciente a reconhecer por que a cessação seria importante
para ele especificamente
. O enfermeiro pode, por exemplo, relacionar o tabagismo aos sintomas que o paciente apresenta, como falta de ar ou tosse crônica, ou destacar como parar de fumar pode melhorar sua convivência com a família. Essa personalização é fundamental, pois quanto mais o paciente percebe sentido pessoal na mudança, maior tende a ser sua motivação.
Na segunda etapa, riscos (Risks), o profissional discute os danos e consequências do tabagismo, tanto imediatos quanto futuros. Essa conversa deve ser informativa, mas sem alarmismo, ressaltando de forma realista os prejuízos à saúde e à qualidade de vida.
Logo após, na etapa das recompensas (Rewards), o enfermeiro destaca os benefícios concretos que o paciente pode alcançar ao parar de fumar — como melhora do olfato, paladar, sono e disposição física — sempre de forma encorajadora e positiva.
A quarta etapa, barreiras (Roadblocks), envolve a identificação dos obstáculos que dificultam a cessação. O enfermeiro deve explorar, com escuta ativa, fatores como ansiedade, medo de engordar ou influência social, e ajudar o paciente a buscar estratégias realistas para superar essas barreiras.
Por fim, a etapa da repetição (Repetition) reforça a importância de retomar o assunto a cada consulta, sem julgamentos e com empatia, reconhecendo que a decisão de parar é um processo gradual.
O modelo dos 5 Rs, portanto, atua como um instrumento motivacional, essencial para os pacientes ainda ambivalentes em relação à cessação. Ele ajuda a criar um ambiente de diálogo, promove a autorreflexão e aumenta progressivamente a prontidão para a mudança.
Na rotina de enfermagem, ambos os modelos podem ser aplicados de forma complementar. Quando o paciente se mostra resistente, o enfermeiro utiliza os 5 Rs para estimular a motivação e reduzir barreiras. À medida que o paciente avança em sua disposição, o profissional passa a aplicar os 5 As, conduzindo-o de maneira estruturada até a cessação efetiva.
Essa abordagem integrada — motivacional e prática — é reconhecida por diversas diretrizes internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde brasileiro, como uma das formas mais eficazes de intervenção breve em tabagismo. Além disso, reforça o papel estratégico do enfermeiro na promoção da saúde e no enfrentamento das doenças crônicas associadas ao uso de tabaco.
Para que as intervenções sejam efetivas a longo prazo, o acompanhamento regular é essencial. Isso inclui registro das características do fumante (história, intensidade, motivação), oferta contínua de suporte, monitoramento de recaídas, reforço motivacional, e ajustes da estratégia conforme necessidade. Ensaios clínicos recentes destacam que intervenções com seguimento aos 6 ou 12 meses têm melhor eficácia quando há suporte contínuo do enfermeiro.
Intervenções farmacológicas e não farmacológicas
Os tratamentos farmacológicos são um componente-chave para muitos fumantes, especialmente aqueles com dependência moderada a alta de nicotina. Vareniclina e bupropiona têm mostrado resultados superiores em várias análises de comparação de redes recentes, especialmente quando combinados com aconselhamento intensivo liderado por enfermagem. Adesivos e gomas nicotínicas também são úteis, principalmente para reduzir sintomas de abstinência no início do abandono.
Além de medicamentos, intervenções comportamentais são vitais. Grupos de apoio, educação em saúde, motivação, entrevistas motivacionais aparecem como técnicas eficazes.
Mudanças no estilo de vida complementam o tratamento para cessação, pois fatores como estresse, sono inadequado, hábitos alimentares ruins e falta de atividade física podem favorecer recaídas. Intervenções integradas que ajudam o paciente a melhorar o estilo de vida geral têm melhores resultados do que aquelas que focam apenas no tabaco. Suporte psicológico, gestão de estresse, e aconselhamento sobre sono e exercício melhoram a manutenção da abstinência.
Resultados e indicadores de sucesso
Indicadores comuns usados incluem:
- Taxa de abstinência autorreferida ou verificada em 7 dias, 6 meses, 12 meses;
- Número de tentativas de cessação;
- Dias sem fumar;
- Redução no uso diário (número de cigarros);
- Qualidade de vida, função pulmonar, sintomas respiratórios;
- Custos evitados, menores hospitalizações;
Recaídas são frequentes, especialmente após os primeiros meses de abstinência. Muitos fumantes retornam ao hábito por estresse, ambiente social favorável ao uso de cigarro, dependência física ou psicológica remanescente.
Também há dificuldades adicionais quando o paciente tem transtornos psiquiátricos — depressão, esquizofrenia, ansiedade — que frequentemente coexistem com tabagismo, tornando a cessação mais complexa.
O impacto do enfermeiro na saúde coletiva
Cessar o tabagismo reduz progressivamente o risco de doenças crônicas como DPOC, câncer de pulmão e doenças cardiovasculares. Enfermeiros atuando em educação preventiva, rastreio de sintomas, aconselhamento universal de tabagistas, contribuem para diminuir prevalência dessas doenças a longo prazo.
Os enfermeiros podem ser envolvidos em programas governamentais, como campanhas de conscientização, linhas de apoio para abandono do tabaco, políticas de smoke-free, e implementação de equipes multidisciplinares para cessação. Sua participação ativa em decisões políticas e na implementação local fortalece a efetividade das políticas.
O vínculo enfermeiro-paciente é fundamental para motivar a cessação, pois confiança, comunicação contínua, seguimento e empatia são fatores importantes. Mudança sustentável (não só abandonar, mas manter a abstinência) depende de suporte emocional, ajustes individualizados e acompanhamento prolongado — tudo isso reforçado pelo papel do enfermeiro.
Conclusão
O enfermeiro ocupa posição central e multifacetada nas intervenções de cessação do tabagismo: como educador, conselheiro, avaliador, facilitador e agente político. Intervenções lideradas por enfermeiros, especialmente aquelas que combinam aconselhamento intensivo, suporte farmacológico (como varenicina ou bupropiona) e acompanhamento contínuo, resultam em taxas de abandono superiores às estratégias mínimas ou ao cuidado usual.
Apesar dos resultados promissores, desafios persistem: recaídas frequentes, falta de formação especializada em muitos contextos, barreiras estruturais como acesso a medicamentos, estigma e transtornos mentais coexistentes. Para maximizar impacto, é necessário integrar práticas de enfermagem em políticas públicas, garantir capacitação, proporcionar recursos (tempo, material) e monitorar resultados com indicadores claros.
Finalmente, o papel do enfermeiro transcende o cuidado individual: ao promover a cessação do tabagismo, a enfermagem contribui para redução de cargas de doenças crônicas, melhora da qualidade de vida, diminuição de custos para os sistemas de saúde, e promoção de sociedades mais saudáveis. Investir no fortalecimento deste papel é uma estratégia essencial no combate ao tabagismo global.