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Autocompaixão na prevenção do suicídio: protocolos de intervenção clínica

O comportamento e o pensamento suicida são influenciados pela interação entre diferentes fatores sociais, culturais, psicológicos, clínicos e biológicos.

Entre os fatores psicológicos de risco para ideação ou comportamento suicida destacam-se o autocriticismo, o perfeccionismo, o isolamento social e a vergonha (O'Connor & Nock, 2014). A autolesão também é considerada um importante fator de alto risco para o suicídio, uma vez que cerca de 50% das pessoas que morrem por suicídio já haviam apresentado episódios prévios de autolesão (O'Connor & Nock, 2014).

Em contrapartida, a autocompaixão tem se mostrado um relevante fator de proteção, tanto contra a autolesão quanto contra a ideação suicida.

A autocompaixão é um processo no qual os indivíduos se oferecem gentileza e cuidado, reconhecendo seu próprio sofrimento sem evitá-lo ou se fundir a ele, ao mesmo tempo em que buscam aliviar essa dor (Neff, 2003). Ela envolve três componentes centrais: autogentileza, senso de humanidade compartilhada e atenção plena (mindfulness) (Neff & Germer, 2019).

Frequentemente, a autocompaixão é equivocadamente confundida com autoestima ou com autoindulgência, embora sejam conceitos distintos.

Enquanto a autoestima costuma depender de conquistas, aprovação externa e comparações sociais, a autocompaixão constitui uma forma mais estável e adaptativa de se relacionar consigo mesmo, caracterizada por bondade diante das imperfeições e pela aceitação do sofrimento como parte inevitável da experiência humana.

Já a autoindulgência refere-se à busca por prazer imediato mesmo em detrimento do bem-estar futuro, ao passo que a autocompaixão está associada ao cultivo de um senso de cuidado orientado para a construção de uma vida significativa e valiosa a longo prazo (Neff & Vonk, 2009).

A autocompaixão tem sido consistentemente associada a diferentes marcadores de bem-estar e saúde mental. Em uma metanálise abrangente, Zessin et al. (2015) investigaram essa relação em 79 amostras de estudos, totalizando 16.416 participantes.

Os resultados indicaram que a autocompaixão está positivamente relacionada a diversas dimensões do bem-estar, especialmente ao bem-estar psicológico e cognitivo, sugerindo que indivíduos mais autocompassivos tendem a apresentar mais indicadores de saúde mental e maior satisfação com a vida.

Em contrapartida, uma revisão sistemática conduzida por MacBeth e Gumley (2012) examinou a associação entre autocompaixão e psicopatologia, evidenciando uma correlação significativa entre baixos níveis de autocompaixão e níveis mais elevados de sofrimento psicológico.

Além disso, diferentes estudos têm destacado a autocompaixão como um fator protetivo importante, negativamente associado à ideação suicida e à autolesão em adolescentes e adultos (Cleare et al., 2019; Somohano et al., 2025; Sun et al., 2020).

Avaliação da Autocompaixão

Diante do papel protetivo que exerce, a autocompaixão tem sido compreendida como um processo associado ao bem-estar e à redução do risco de suicídio e autolesão.

Por essa razão, é fundamental avaliar clinicamente os níveis de autocompaixão e autocrítica dos pacientes, assim como outros elementos que compõem o risco de comportamento suicida.

No contexto brasileiro, a autocompaixão pode ser mensurada por meio da Escala de Autocompaixão (Self-Compassion Scale; Neff, 2003), traduzida e adaptada para o português, demonstrando propriedades psicométricas adequadas (Souza & Hutz, 2016).

Durante a avaliação clínica, além da exploração dos níveis de autocompaixão e autocrítica, é indispensável a realização de perguntas diretas sobre ideação e comportamento suicida.

Também é importante avaliar a intensidade da ideação, considerando frequência, duração e dificuldade de controle dos pensamentos, bem como o risco objetivo, como acessibilidade a meios, presença de plano, histórico de tentativas e fatores precipitantes recentes.

Essa análise permite classificar o risco em baixo, moderado ou alto, direcionando as decisões clínicas, que podem variar desde acompanhamento ambulatorial e elaboração de um plano de segurança até a indicação de hospitalização em casos mais graves (Baldaçara et al., 2020a; Baldaçara et al., 2020b).

Outros sinais clínicos também devem ser considerados na avaliação de risco, visto que múltiplos fatores psicológicos e comportamentais podem contribuir para a vulnerabilidade ao suicídio.

Entre eles, destacam-se rigidez cognitiva, ruminação, impulsividade, desesperança, vergonha, baixo otimismo, perfeccionismo, traços de personalidade como neuroticismo, supressão de pensamentos, isolamento social, sensação de não pertencimento e percepção de ser um peso para os outros (O’Connor & Nock, 2014).

Autocompaixão para o comportamento suicida

Apesar de a autocompaixão se apresentar como uma possibilidade interessante para lidar com fatores de risco associados ao suicídio, como vergonha, autocrítica, perfeccionismo e rigidez, até o momento não há evidências provenientes de ensaios clínicos randomizados que utilizem intervenções baseadas exclusivamente em autocompaixão para a prevenção do suicídio em populações clínicas de alto risco (Cleare et al., 2019).

Em contrapartida, existem evidências científicas robustas que demonstram a eficácia de abordagens psicoterápicas específicas nesse contexto.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) breve para prevenção do suicídio reduziu de forma significativa o número de tentativas de suicídio, além de também diminuir os níveis de ideação suicida (Diefenbach et al, 2021; Diefenbach, 2024).

Outro modelo com respaldo sólido é a Terapia Comportamental Dialética (DBT), que apresenta eficácia consistente para pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline e com risco de suicídio e autolesão (DeCou, Comtois & Landes, 2019).

O plano de segurança também parece ser uma estratégia que reduz as tentativas de suicídio, apesar de não ter evidências tão claras ou robustas sobre o seu impacto na ideação suicida (Nuji, et al., 2021).

Assim, ainda que a autocompaixão não deva ser considerada a primeira linha de intervenção para casos de suicídio com o objetivo de reduzir tentativas e ideação, ela pode ser entendida como um processo terapêutico auxiliar e integrativo, somando-se a tratamentos de primeira linha de intervenção para este desfecho.

Ao trabalhar dimensões como autocrítica, vergonha, perfeccionismo e rigidez cognitiva, a autocompaixão pode fortalecer fatores de resiliência psicológica, contribuindo para reduzir ideação suicida e promover maior bem-estar, ao mesmo tempo em que se articula a abordagens de eficácia comprovada, como a TCC e a DBT.

Nesse sentido, exercícios breves de mindfulness autocompassivo, práticas de “self-compassion break” (pausa para reconhecer o sofrimento e cultivar uma resposta gentil a si mesmo), bem como a escrita compassiva voltada para reestruturar narrativas autocríticas, podem ser integrados no acompanhamento clínico.

Essas estratégias auxiliam os pacientes a reconhecerem sua humanidade compartilhada, a reduzirem sentimentos de vergonha e a desenvolverem uma relação interna mais acolhedora, atuando não apenas como suporte durante crises, mas também como recurso preventivo e fortalecimento do bem-estar a longo prazo (Neff & Germer, 2019).

Considerações finais

A autocompaixão representa um recurso promissor no fortalecimento emocional e na prevenção do comportamento suicida, sobretudo ao atuar sobre fatores de risco como vergonha, autocrítica e perfeccionismo.

Ainda que não deva substituir intervenções de primeira linha, como a TCC, a DBT e o plano de segurança, pode ser integrada a elas como prática complementar, ampliando recursos de enfrentamento e resiliência psicológica.

Ressalta-se, contudo, a necessidade de mais estudos e ensaios clínicos randomizados que avaliem protocolos estruturados de autocompaixão voltados especificamente para populações em risco de suicídio, de modo a consolidar evidências científicas sobre sua eficácia na prevenção e tratamento.

Além disso, reforça-se a importância da atualização profissional contínua para que psicólogos possam incorporar, de forma crítica e fundamentada, práticas terapêuticas emergentes que favoreçam a prevenção e a promoção de saúde mental.

Autoria

  • Franciele Peloso

Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Especialista em Terapias Comportamentais Contextuais. Atualmente, é doutoranda em Psicologia pela PUC-RS e especializanda em Psicoterapia para Adultos Neurodivergentes e em Prática Baseada em Evidências em Psicologia.

  • Bolivar Cibils Filho

Psicólogo, Mestre e Doutorando em Psicologia Clínica (PUCRS). Especialista em Terapias Cognitivas e Comportamentais. Possui treinamento em Terapia Focada na Compaixão pela Compassionate Mind Foundation, formação em Terapia Comportamental Dialética (Sínteses), formação em Terapia do Esquema (Wainer/ISST) e aprimoramento no tratamento de transtornos alimentares pelo AMBULIM (IPq/FMUSP). Professor e supervisor clínico em cursos de pós-graduação, com ênfase em terapias comportamentais contextuais. Realiza pesquisas nas áreas de imagem corporal, transtornos alimentares, autocompaixão e uso de tecnologias.

  • Eloha Flória Lima Santos

Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.

  • Carmem Beatriz Neufeld

Livre docente pela FFCLRP-USP. Pós-doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Doutora e Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Formação em Terapia dos Esquemas pelo LaPICC-USP. Formação em Ensino e Supervisão pelo Beck Institute. Terapeuta Certificada em TCC pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas – FBTC. Psicóloga pela Universidade da Região da Campanha - URCAMP. Fundadora e coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Bolsista Produtividade do CNPq. Presidente Fundadora da Associação de Intervenções Psicossociais para Grupos - APSIG. Past-President da Federação Latino-Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO. Representante do Brasil na Sociedade Interamericana de Psicologia - SIP. Ex-Presidente Fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências – AESBE. Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC.

Perguntas Frequentes